27.10.07

O cão vadio

Outrora, uma coisa era a arte, outra coisa, a vida; mesmo se a arte se propunha "imitar" a vida.

Hoje, e desde há algum tempo, a arte confunde-se cada vez mais com a vida, de tal forma que esta, em certos casos, parece (querer) imitar a própria arte. Na medida em que "tudo vale", qualquer coisa, mesmo insignificante, pode ser olhada como objecto artístico. Desse modo, a própria "coisa", no seu real, torna-se invisível.

A não ser que um gesto desesperado, mas consequente, tire as devidas consequências de um tal estado de coisas, como foi caso recente de Gillermo Habacuc Vargas, um artista da Costa Rica que decidiu expor um cão vadio faminto numa galeria de arte. Tal como os ready-made de Marcel Duchamp, também este "cão" foi encontrado por aí, a vadiar, e elevado à dignidade da "coisa" artística por meio de um gesto que não deixou de causar escândalo.

O artista foi o escolhido para representar o seu país na "Bienal Centroamericana Honduras", correndo uma petição, on line, para que o prémio não lhe seja atribuído.

Na verdade, porém, o que fez ele? Limitou-se a "expor", a revelar, não só aquilo em que a arte se tornou (não um outro olhar sobre a vida, mas uma nova forma de cegueira) como aquilo em que nos tornamos todos nós: olhando para a vida como se ela fosse uma questão estética. É como se o poder das imagens, por mais devastadoras ou cruéis que se apresentem, nos paralisasse ou impedisse de agir. A prova é que ninguém rompeu o círculo mágico da arte para se aproximar do cão , dando-lhe comida ou água e impedindo-o de morrer. Nem sequer este poderá dizer (se um cão dissesse alguma coisa...depois de morto), como a personagem de Kafka, que morreu como um cão, pois os cães não costumam morrer em galerias de arte, a não ser que a moda pegue.

Não obstante, na "época sem vergonha" em que vivemos, este gesto "desavergonhado" não deixa de ter mérito, ao pôr a nu a coisa terrível em que arte se pode (nos pode) tornar. Desse modo, escandaloso, ele atravessou a barreira, o torpor do bem e do belo, fazendo-nos entrar num limiar de maldade essencial que nos abala, que abala tanta gente, porque é a nossa própria maldade que aí nos toca e perturba, como um cão vadio escanzelado.

3 comentários:

Fernando Borges de Moraes disse...

Se uma galeria (topos) pode revelar algo como arte, pode-se, talvez, considerar que a arte pode ser "recortada" por qualquer um em qualquer lugar, bastando, para tanto, sensibilidade. No meu andar pelas ruas vezes por outra me deparo com "arte", algo que independe de "exposição", eis que exposto já se encontra.
Sds.

Ana disse...

O artista não se limitou a expôr o cão numa galeria mas prendeu-o lá privando-o de lutar pela sua sobrevivência já que, mesmo enquanto vadio, o animal tinha liberdade de procurar o seu próprio alimento, por mais escasso que este fosse. As propostas artísticas que passam pelo "artista enquanto obra", por mais ousadas e levadas ao limites, nunca puseram em causa a sobrevivência do performer. Não consigo deixar de pensar nesta polémica de outra forma e, por isso e naturalmente, assinei a dita petição. (Gosto muito do seu blog)

Filipe Pereirinha disse...

Tem razão ao dizer: "nunca puseram em causa a sobrevivência do performer". Eu acrescentaria: até hoje. Com efeito, na ânsia de originalidade permanente, quase já só falta isso (se é que ainda não aconteceu,algures). Há muito tempo que a barreira do belo e do bem deixou de ser um limite para a arte. É deste ponto de vista que o "gesto" de Guillermo Habacuc vargas, no seu "cinismo, me parece revelar uma verdade "estranhamente familiar" ao movimento da arte contemporânea. É nessa medida que ele dá que pensar. Talvez este "cão vadio" seja o Cristo da arte: teve de morrer para fazer ressuscitar qualquer coisa nos fazedores da arte, mas sobretudo em nós, os espectadores...que passámos a olhar o mundo (e tudo o que nele acontece) como mero fenómeno estético. Caso contrário, a cada nova notícia de um atentado no Iraque, por exemplo, ou de uma criança desaparecida ou abusada...não faríamos simplesmente zapping com o olhar. O nosso olhar sobre o mundo tornou-se "estético", isto é, indiferente. Todos nós, e não apenas o artista ou os espectadores da exposição de Vargas, deixamos morrer o cão" à sede e à fome. É isso que o "gesto" de vargas também nos mostra, mesmo que não seja agradável de ver.
Voltar a despertar os sentidos (o que tentam, apesar de tudo, alguns artistas) é, por exemplo, fazer com que haja "coisas" que voltem a ser desagradáveis de ver, que nos libertem do "sono de indiferença" em que vivemos cada vez mais, em particular graças ao poder dos "media" que têm a "arte" de tornar tudo indiferente, até o sofrimento,a catástrofe, a morte.
Na verdade, quantos cães vadios morrem todos os dias à nossa vista (desarmada)sem que haja uma qualquer petição a circular? Neste sentido, o gesto de vargas já valeu a pena, como diria Pessoa...