As palavras não são as coisas e por isso movem-se e deslizam, prendem-se e desprendem-se umas às outras, criando, nessa movimento, novos efeitos de sentido.
O sentido flutua como um barco de papel à flor da água - como se dizia do espírito de Deus no livro do Génesis - arriscando naufragar, imergir a cada momento.
Tal como o barco de papel, o sentido é impulsionado pelo vento do uso ( e do abuso), mudando a cada instante de direcção. (Perdão: eu quis dizer: direção!)
Basta, por vezes, o bater de asas de uma borboleta, algures, para que chovam aqui novos efeitos de sentido. E toda a vida muda. Um simples bater de asas de um novo sentido pode fazer tremer a vida toda. (Perdão: eu deveria dizer não-toda, pois a vida toda é sonho de idiota; mas eu, como homem, sou também meio idiota, não? Li certa vez um livro que tinha o sugestivo título: História de um idiota contada por ele mesmo. Félix de Azúa. Um homem, por sinal. Mas além de idiota, eu não sou normal.)
O governo (em sintonia com grande parte da oposição) prepara-se para aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. É normal. Todos os ventos que sopram, de um lado e do outro, parecem estar em sintonia: é a evolução normal das coisas. Aliás, em consonância com o inconsciente freudiano - quem diria - que desconhece o Outro sexo.
Em jeito de piada, poderíamos actualizar uma velha frase de Louise Vilmorin: hoje em dia, já só os padres querem casar-se. E os homossexuais, diríamos nós!
E é normal, pois se não fossem os padres e os homossexuais, o que seria da velha e sagrada instituição do casamento com tantos divórcios e separações entre os demais?
Talvez porque as mulheres já não fiquem em casa, ou já não queiram simplesmente cuidar dos filhos ou dos maridos...como filhos. E é normal. Elas têm o mesmo direito de ir à guerra, à luta...política. É normal a igualdade. É normal a paridade, como agora se diz. Se elas não querem, obrigam-se...em nome da igualdade e da paridade, como se vê nos parlamentos nacional ou comunitário. (Espero que em nome da paridade não obriguem os homens a parir, se bem que o cinema já tenha explorado essa via).
Tudo muda. As escolas deixaram de ensinar e os alunos de aprender. O que é mais normal (mais regular) é encontrar hoje em dia cursos irregulares nas escolas. E é normal que assim seja. Se tudo muda, porque haveriam as escolas de ficar paradas?
Quando vou almoçar ao restaurante com colegas ou amigos e peço um café...normal, todos se riem de mim. O que é isso, um café normal? Se o empregado diz, um café? - todos respondem: sim, uma café cheio, a escaldar, curto, pingado, abatanado..., e eu digo simplesmente, desconsoladamente: um café normal! Já me aconteceu o empregado ficar de cabeça "abatanada" a olhar para mim, como se não tivesse bem a certeza do que eu estava a pedir.
Um bater de asas... e o sentido já não é o mesmo. O que era claro, anoitece; o que estava à superfície da corrente, submerge; o que era firme, torna-se inseguro.
E é normal!
Só eu, que teimo em pedir um café normal, decididamente não sou normal.
Será normal?
20.11.09
2.11.09
Caim
O Plano de leitura, em relação ao qual Saramago se mostrou, desde o princípio, bastante céptico, permitiu concluir o que já todos sabiam: os portugueses lêem pouco, muito pouco, quase nada. Porém, tal não os impede de falar de quase tudo e - quem diria - até dos próprios livros...que não leram. É o caso do último livro de Saramago: "Caim". A rádio, os jornais, a televisão...têm dado uma cobertura massiva à polémica em torno deste livro.Caim está para o Antigo Testamento como O Evangelho Segundo Jesus Cristo estava para o Novo. Se num caso se tratava de humanizar o Filho do Homem, escovando-o de toda e qualquer divindade, agora trata-se de ajustar as contas com o próprio Deus, bem como com todos os demais nomes do Pai, dos Patriarcas sem vergonha da humanidade (Adão, Noé, Abraão, Moisés...) que estão dispostos, se for preciso, a sacrificar os seus próprios filhos ou o seu próprio povo para satisfazer a cruel e obscena Vontade de Deus.
Caim vai percorrendo os diversos cenários em que decorrem tais episódios bíblicos graças a uma engenhosa estratégia narrativa que consiste, por assim dizer, em "espacializar" o tempo, como se os diferentes momentos que o tecem (o antes, o depois) fossem compossíveis, isto é, pudessem coexistir ao mesmo tempo. Caim limita-se, por isso, a errar entre os diversos lugares (e momentos) célebres do Antigo Testamento como se errasse apenas entre vários "presentes".
Por meio de semelhante estratégia, o narrador vai revelando, passo a passo e de forma cada vez mais radical, sem meias tintas ou contenção nas palavras, o avesso da "história oficial". Tal propósito não deixa, aliás, de estar em consonância com toda a obra de Saramago: tratou-se sempre de dar voz (por meio do romance, do ensaio ou do ensaio de romance) e de tomar partido pelos que foram, de uma forma ou de outra, esmagados, derrubados ou excluídos pela história oficial. A função da escrita consiste, neste caso, em reescrever a história de modo a permitir que a estrutura de ficção em que esta assenta não abafe por completo o seu núcleo de verdade ou o seu grão de real.
Caim não se deixa iludir ou enganar pela dignidade ou respeitabilidade (suposta) dos nomes do Pai consagrados pela tradição bíblica. Ele sabe que há um gozo, um proveito ou usufruto por detrás dessa suposta dignidade ou respeitabilidade. Talvez por isso ele seja condenado a errar, condenado à errância. Eis por que ele nutre uma raiva, um ódio de morte ao próprio Deus. No limite, tudo o que ele faz poderia resumir-se numa única frase: "tentativas para matar o próprio deus".
Caim vai-nos sendo apresentado como um grande copulador, alguém sem problemas de erecção, que está sempre pronto para satisfazer o desejo sexual de toda e qualquer mulher, desde a mais exigente, Lilith, até às noras ou à mulher do próprio Noé. E tudo isto com a estranha condescendência de Noé e do próprio Deus, uma vez que é preciso procriar, crescer e multiplicar-se. Mas é nesta parte que a história vai ficando subitamente mais clara: em última análise, o alvo da pulsão que move Caim - também ele "levantado do chão" para onde a escolha absurda de Deus, preferindo a oferenda do seu irmão Abel, o havia escorraçado - é outro, como se quisesse f. o próprio Deus na impossibilidade de o matar.
Este é um livro que tem o ódio como personagem principal. Não é Caim (o protagonista do romance) ou o próprio Deus (judaico-cristão), mas o ódio. E uma pergunta nos fica (pelo menos a mim me ficou): a quem se endereça este ódio se Deus está morto, ou se morreu há muito tempo, tanto no dizer de Nietzsche como do próprio Saramago, ateu convicto.
A não ser que o ódio, como dizia Freud algures, não seja exactamente o contrário do amor (pois o contrário do amor é a indiferença), mas a sua continuação por outros meios. Se José Saramago abdicou de acreditar em Deus, não deixou de servir-se dele como sintoma. Deus é um dos nomes do sintoma...de Saramago, o seu amoródio por excelência: algo sobre o qual não cessou jamais de falar, de escrever, de discutir - "pois a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuam a discutir e a discutir estão ainda".
Com muito humor, é certo, mesmo se o assunto não lhe tem dado, até agora, grande vontade de rir
8.10.09
A era do pânico
Para além dessa coisa mais ou menos viscosa, fluída e onde cabe tudo, a que se convencionou chamar - vá-se lá saber porquê! - New Age, o que caracteriza realmente a nossa época?Desde há vários meses, quase não se tem ouvido falar de outra coisa (salvo algumas anedotas protagonizadas pelos mais ilustres representantes da nação, da direita à esquerda): VEM AÍ A GRIPE A!
Talvez seja a falta de assunto mais relevante (pois o futebol já não desfralda bandeiras como outrora) que eleve a uma tal dignidade algo que não passa, no dizer de algumas conceituadas vozes, de uma "gripe banal".
Em Portugal, onde a verdadeira tragédia não resulta de não se lavar suficientemente as mãos - visto que passamos a vida a lavar as mãos disto e daquilo - mas de como nos (mal) conduzimos na estrada e na vida, há coisas sobre as quais o excesso de informação lança um pesado manto de silêncio.
É verdade que não se trata de um mal exclusivamente nosso. Na era da informação global, o espaço e o tempo estreitaram-se de tal modo que ficaram reduzidos à espessura de um instante: ao mesmo tempo e em toda a parte, como um deus ao contrário, o mundo inteiro ameaça cair sobre nós, esmagando-nos.
Porém, o excesso de informação não gera mais conhecimento (mesmo que se fale muito da sociedade da informação e do conhecimento, como se fossem termos equivalentes), mas gera mais pânico.
Na verdade, cada vez que ligamos a rádio ou a televisão, por exemplo, somos bombardeados pelos mais diversos cataclismos que sucedem um pouco por toda a parte no mundo. A era da informação "concentrou", por assim dizer, na dimensão do ponto e na espessura do instante o que estava outrora disperso pelos mais variados lugares do espaço e momentos do tempo. Agora, o mundo inteiro, o universo inteiro, com suas permanentes colisões ou cataclismos, cai todo sobre nós de uma só vez.
Por outro lado - e contrariamente ao que pensam ou afirmam alguns - talvez deste excesso quotidiano de informação em torno da gripe A (é um exemplo) não saiam comportamentos mais "cuidadosos", mas antes uma nova e resistente indiferença. Com efeito, falar demasiado numa coisa, segundo um modelo de fala cada vez mais "vazio", como um disco que gira e repete sempre a mesma música, não "inscreve" necessariamente um acontecimento, mas pode até, pelo contrário, gerar mais e mais indiferença.
O que vale, apesar de tudo, é que não faltarão novos fármacos e terapias diversas para combater o pânico. Haverá também um fármaco ou uma vacina contra a indiferença?
4.10.09
Nos confins da modernidade
Foi graças ao fotógrafo contemporâneo Hans Sylvester - um alemão vivendo no sul de França e que fez a opção pelo "livro" em detrimento das galerias de arte - que estas imagens nos chegaram dos confins da civilização: uma "primitiva" tribo africana que habita as margens do Omo, um rio que atravessa a Etiópia, o Sudão e o Quénia e que faz uma arte nada "primitiva".Contrariamente à ciência e à tecnologia, que evoluem de forma clara e irreversível, fazendo naufragar as velhas teorias, procedimentos e visões do mundo, na arte não há "evolução"; pelo menos, no mesmo sentido.
É por isso que muitos artistas contemporâneos se sentiram - e continuam a sentir - atraídos por esta arte, pelo saber fazer das tribos ditas "primitivas". É que, efectivamente, mesmo sem entrarem no rio da modernidade, elas já se banham em águas da mais pura vanguarda.
29.9.09
Soltar ou prender a língua?
Um pequeno artigo que tive a oportunidade de ler no último número do jornal Expresso (25 de Setembro, p. 44) chamou-me a atenção para um ensaio de Lera Boroditsky, investigadora e professora de psicologia e neurociência da Universidade de Stanford, intitulado: How Does Our Language Shape the Way We Think.Nesse artigo, a investigadora referida demonstra que as pessoas que falam diferentes línguas pensam diferentemente. A língua afecta não só o pensamento, mas também a forma como vemos o mundo ou vivemos as nossas vidas.
Se a tese não é propriamente nova, pois já a "hipótese Sapir-Whorf" havia trilhado essa via, ela tem, não obstante, um interesse redobrado: não só porque, vindo de onde vem, possui uma consistência científica que lhe dá credibilidade, mas igualmente porque, vinda de onde vem, acaba por lançar uma nova acha para a fogueira da controvérsia que opõe aqueles que defendem a "primazia da linguagem" (Heidegger, Lacan...) e aqueles (Damásio, por exemplo) que a "secundarizam", como se esta fosse apenas um epifenómeno relativamente ao pensamento, às imagens ou aos mapas neurais.
O artigo do Expresso, por outro lado, não deixa de ter um redobrado e paradoxal interesse: é que, depois de falar de um ensaio em que é defendido o carácter determinante da língua no modo como pensamos, ele acaba por concluir o seguinte: "Por isso, todos -médicos, investigadores, cientistas, universidades, empresários, investidores e políticos - devem falar a mesma língua; a da inovação , empreendedorismo, motivação, produtividade. Portugal e a Europa beneficiarão desta qualidade."
Falar a mesma língua significa, neste contexto, pensar da mesma maneira, ou de uma maneira só. Sem alteridade.
Não é isto o que justifica que um dia depois, no seguimento do resultado de umas eleições em que o povo, soberanamente, decidiu que não queria que se falasse uma só língua no parlamento (para não se pensar de uma maneira só), algumas vozes se ergueram para dizer que vinha aí o caos, o perigo da ingovernabilidade, e que era porventura trágico o cenário que se avizinhava?
Será que o luto do salazarismo não cessa de não se efectuar entre nós? Que o "ritual" da celebração do 25 de Abril, ano após ano, como tem relembrado José Gil, não passa de uma forma vazia, de um faz de conta, de um puro simulacro?
Quando falamos uma só língua, podemos entender-nos melhor, mas aquilo que dizemos é mais pobre, mesmo que aumente a produtividade.
Um dia - lá chegaremos! - há-de falar-se na Europa (quiçá no mundo) uma só língua, pois falar várias línguas custa muito dinheiro, é improdutivo e gera um sem número de mal-entendidos.
Mas que será de nós, então, repetindo, em eco, banalidades ou meras tautologias?
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