22.10.07

Como é da praxe!

Todos os anos é assim, pelo menos neste país à beira mar plantado: a entrada na universidade é acompanhada por estranhos rituais que alguém baptizou de praxe. A praxe escandaliza porque é, ou parece ser, o avesso da Universidade.

O que parece comandar o discurso universitário é um saber despojado de paixão. Contudo, é possível descortinar, sob as vestes de um tal despojamento, uma paixão que o inflama: o poder. Como já admitia Platão, saber é poder.

Deste ponto de vista, o discurso universitário é, fundamentalmente, um dispositivo de poder. Entrar na universidade é, ao mesmo tempo, acomodar-se a um tal discurso e submeter-se a um tal dispositivo.

Eis o que vem à tona, para escândalo de muitos, na altura em que a verdade fala pela bocas dos excessos que são cometidos por uns sobre os outros, os praxantes sobre os praxados, na época da praxe.

A praxe
arremeda o discurso do poder, levando até ao limite e virando do avesso o seu dispositivo. Ela é, por assim dizer, o seu avesso pulsional: a caricatura ritualizada de todas as formas de domínio de uns sobre os outros, dos mais velhos sobre os mais novos (caloiros) infligindo-lhes sevícias morais (e até físicas, cada vez mais físicas) e obrigando-os a comportamentos degradantes.

Apesar de tudo, no calor do excesso se revela que o objecto que por ali circula não é todo subsumido pelo dispositivo académico e deixa restos... difíceis de engolir...

4 comentários:

fernanda disse...

Aqui no Brasil também acontece o mesmo, principalmente em São Paulo.
É chamado de Trote, e, ocorre principalmente nas Universidades onde somente pessoas que estudaram nas melhores escolas particulares conseguem vagas. ´
É algo incrivel, pois todo início do ano letivo, é mencionado de várias formas. É visto, como uma manifestação exagerada daqueles que conseguiram a tão esperada vaga na Universidade e como um absurdo , um abuso de Poder, visto pelos mais " fracos" que nunca tiveram a oportunidade de estudar, ou de ter uma vaga na escola pública.

Filipe Pereirinha disse...

Pelos vistos, na era global, o fenómeno tende a globalizar-se...

Fernando Borges de Moraes disse...

Por vezes tenho problema em acessar seu blog. Tudo trava. Não sei se é a máquina, a conexão ou ambas.
Bueno, quanto ao tópico, vejo que tal se relaciona diretamente com os rituais de passagem como definidos na antropologia social. Pergunto-lhe se todo o ritual de passagem é identificável com um discurso nessa perspectiva por ti abordada a partir de Lacan.

Filipe Pereirinha disse...

Não necessariamente. Aliás, é sempre perigosa a generalização, a perspectiva "totalizante". Os ritos de passagem são também (eram também) a manifestação, a presença do poder do "simbólico". Porém, eu quis abordar (parcialmente) o fenómeno do ponto de vista dos "excessos" que são cometidos cada vez com maior desmesura por estas bandas. Todos os anos os meios de comunicação dão conta desses excessos, por vezes fatais. Quando escrevi o texto, tinha acabado de receber um email de alguém que denunciava, com bastante veemência, um desses excessos. Há, parece-me, uma dimensão que não tem propriamente (ou apenas) a ver com o rito de passagem de um sujeito, mas igualmente com o "objecto" pulsional que aí está envolvido. No discurso universitário pretende transformar-se o objecto em "objecto de saber". Isso deixa restos...

Lamento as dificuldades sentidas no acesso ao blog. Desconheço a razão.
F.P.