8.10.09

A era do pânico

Para além dessa coisa mais ou menos viscosa, fluída e onde cabe tudo, a que se convencionou chamar - vá-se lá saber porquê! - New Age, o que caracteriza realmente a nossa época?

Desde há vários meses, quase não se tem ouvido falar de outra coisa (salvo algumas anedotas protagonizadas pelos mais ilustres representantes da nação, da direita à esquerda): VEM AÍ A GRIPE A!

Talvez seja a falta de assunto mais relevante (pois o futebol já não desfralda bandeiras como outrora) que eleve a uma tal dignidade algo que não passa, no dizer de algumas conceituadas vozes, de uma "gripe banal".

Em Portugal, onde a verdadeira tragédia não resulta de não se lavar suficientemente as mãos - visto que passamos a vida a lavar as mãos disto e daquilo - mas de como nos (mal) conduzimos na estrada e na vida, há coisas sobre as quais o excesso de informação lança um pesado manto de silêncio.

É verdade que não se trata de um mal exclusivamente nosso. Na era da informação global, o espaço e o tempo estreitaram-se de tal modo que ficaram reduzidos à espessura de um instante: ao mesmo tempo e em toda a parte, como um deus ao contrário, o mundo inteiro ameaça cair sobre nós, esmagando-nos.

Porém, o excesso de informação não gera mais conhecimento (mesmo que se fale muito da sociedade da informação e do conhecimento, como se fossem termos equivalentes), mas gera mais pânico.

Na verdade, cada vez que ligamos a rádio ou a televisão, por exemplo, somos bombardeados pelos mais diversos cataclismos que sucedem um pouco por toda a parte no mundo. A era da informação "concentrou", por assim dizer, na dimensão do ponto e na espessura do instante o que estava outrora disperso pelos mais variados lugares do espaço e momentos do tempo. Agora, o mundo inteiro, o universo inteiro, com suas permanentes colisões ou cataclismos, cai todo sobre nós de uma só vez.

Por outro lado - e contrariamente ao que pensam ou afirmam alguns - talvez deste excesso quotidiano de informação em torno da gripe A (é um exemplo) não saiam comportamentos mais "cuidadosos", mas antes uma nova e resistente indiferença. Com efeito, falar demasiado numa coisa, segundo um modelo de fala cada vez mais "vazio", como um disco que gira e repete sempre a mesma música, não "inscreve" necessariamente um acontecimento, mas pode até, pelo contrário, gerar mais e mais indiferença.

O que vale, apesar de tudo, é que não faltarão novos fármacos e terapias diversas para combater o pânico. Haverá também um fármaco ou uma vacina contra a indiferença?

4.10.09

Nos confins da modernidade

Foi graças ao fotógrafo contemporâneo Hans Sylvester - um alemão vivendo no sul de França e que fez a opção pelo "livro" em detrimento das galerias de arte - que estas imagens nos chegaram dos confins da civilização: uma "primitiva" tribo africana que habita as margens do Omo, um rio que atravessa a Etiópia, o Sudão e o Quénia e que faz uma arte nada "primitiva".

Contrariamente à ciência e à tecnologia, que evoluem de forma clara e irreversível, fazendo naufragar as velhas teorias, procedimentos e visões do mundo, na arte não há "evolução"; pelo menos, no mesmo sentido.

É por isso que muitos artistas contemporâneos se sentiram - e continuam a sentir - atraídos por esta arte, pelo saber fazer das tribos ditas "primitivas". É que, efectivamente, mesmo sem entrarem no rio da modernidade, elas já se banham em águas da mais pura vanguarda.

29.9.09

Soltar ou prender a língua?

Um pequeno artigo que tive a oportunidade de ler no último número do jornal Expresso (25 de Setembro, p. 44) chamou-me a atenção para um ensaio de Lera Boroditsky, investigadora e professora de psicologia e neurociência da Universidade de Stanford, intitulado: How Does Our Language Shape the Way We Think.

Nesse artigo, a investigadora referida demonstra que as pessoas que falam diferentes línguas pensam diferentemente. A língua afecta não só o pensamento, mas também a forma como vemos o mundo ou vivemos as nossas vidas.

Se a tese não é propriamente nova, pois já a "hipótese Sapir-Whorf" havia trilhado essa via, ela tem, não obstante, um interesse redobrado: não só porque, vindo de onde vem, possui uma consistência científica que lhe dá credibilidade, mas igualmente porque, vinda de onde vem, acaba por lançar uma nova acha para a fogueira da controvérsia que opõe aqueles que defendem a "primazia da linguagem" (Heidegger, Lacan...) e aqueles (Damásio, por exemplo) que a "secundarizam", como se esta fosse apenas um epifenómeno relativamente ao pensamento, às imagens ou aos mapas neurais.

O artigo do Expresso, por outro lado, não deixa de ter um redobrado e paradoxal interesse: é que, depois de falar de um ensaio em que é defendido o carácter determinante da língua no modo como pensamos, ele acaba por concluir o seguinte: "Por isso, todos -médicos, investigadores, cientistas, universidades, empresários, investidores e políticos - devem falar a mesma língua; a da inovação , empreendedorismo, motivação, produtividade. Portugal e a Europa beneficiarão desta qualidade."

Falar a mesma língua significa, neste contexto, pensar da mesma maneira, ou de uma maneira só. Sem alteridade.

Não é isto o que justifica que um dia depois, no seguimento do resultado de umas eleições em que o povo, soberanamente, decidiu que não queria que se falasse uma só língua no parlamento (para não se pensar de uma maneira só), algumas vozes se ergueram para dizer que vinha aí o caos, o perigo da ingovernabilidade, e que era porventura trágico o cenário que se avizinhava?

Será que o luto do salazarismo não cessa de não se efectuar entre nós? Que o "ritual" da celebração do 25 de Abril, ano após ano, como tem relembrado José Gil, não passa de uma forma vazia, de um faz de conta, de um puro simulacro?

Quando falamos uma só língua, podemos entender-nos melhor, mas aquilo que dizemos é mais pobre, mesmo que aumente a produtividade.

Um dia - lá chegaremos! - há-de falar-se na Europa (quiçá no mundo) uma só língua, pois falar várias línguas custa muito dinheiro, é improdutivo e gera um sem número de mal-entendidos.

Mas que será de nós, então, repetindo, em eco, banalidades ou meras tautologias?

10.9.09

Inventar conceitos

Segundo Deleuze, a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos (O que é a Filosofia?, p. 10).

Haverá um conceito que permita pensar Portugal e os portugueses sem cair no mero senso comum, na simples anedota (mesmo se espírito não nos falta para anedotar sobre nós próprios) ou numa qualquer "psicanálise mítica do destino portugês" (E. Lourenço)?

Para José Gil, deleuziano convicto, a resposta é o conceito que ele mesmo propôs no livro Portugal, hoje - O medo de existir (Relógio D'Água, 2004): " a não- inscrição". Segundo a tese avançada nesse livro, Portugal seria o país da não-inscrição. Um país onde nada "acontece" realmente, mesmo se sucede muita coisa, se há um falatório geral, constante e mediático sobre tudo e sobre nada. Todo o acontecimento é, por assim dizer, esvaziado de substância, de conteúdo, restando dele a mera forma vazia e sem consequências.

Poderíamos pensar este conceito de "não-inscrição", em termos psicanalíticos, como uma espécie de "branco" (ou de branca) inconsciente que irradia, por contágio, a tudo o que se diz ou se faz, retirando-lhe toda e qualquer carga ou eficácia reais. A razão nuclear desta brancura, da não-inscrição e "desnorte" que a mesma implica (Cf. Em busca da identidade - o desnorte, Relógio D'Água, 2009) deve-se , segundo José Gil, ao facto de os portugueses não terem feito o luto do salazarismo (ideia repetida no último nº da revista Ler, p. 24-27). Mais do que uma não-inscrição desse luto a nível simbólico, tratar-se-ia de uma verdadeira "forclusão" do (seu) real, de tal modo que não cessamos de ritualizar, de celebrar (simbolicamente) o enterro do salazarismo - como acontece todos os anos por altura do 25 de Abril -, mas tais rituais ou celebrações não passam hoje de meras caricaturas formais sem o mínimo alcance real.

Esta fractura, esquize ou divórcio cada vez maiores entre a forma e o conteúdo está bem patente num exemplo dado por José Gil no seu último livro Em Busca da Identidade - O desnorte; um exemplo, aliás, bem conhecido de todos os portugueses. Quando mais de 100 000 professores, por duas vezes consecutivas, se manifestaram nas ruas de Lisboa contra o modelo de avaliação que o governo pretendia impôr-lhes, este respondeu com silêncio e inacção, justificando-os com esta frase: "Estamos em democracia, toda a gente tem o direito de se manifestar. Que se manifestem à vontade. Mas temos também o direito de continuar a fazer o que fazemos."

José Gil explica esta frase e a atitude que lhe subjaz da seguinte forma: "Deixando intactos os meios de contestação mas fazendo desaparecer o seu alvo, desinscreve-os do real. É uma técnica de não-inscrição. Ao separar os meios do alvo, faz-se do protesto uma brincadeira de crianças, uma não-acção, uma acção não performativa. Esta reduz-se a um puro discurso contestatário, esvaziado do conteúdo real a que reenviava. (...) Conviria chamar a este mecanismo tão eficaz a "desactivação da acção". É a não-inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política, à maneira de certos processos priscóticos." (p. 55-56).

O próprio modelo de avaliação que este governo quis impor aos professores (e não só) é um exemplo bastante eloquente da não-inscrição como técnica, estratégia ou retórica política: tenta cobrir-se com um manto de papéis, de burocracia, de infindáveis normas e procedimentos formais (que nem a Kafka lembrariam) o grande vazio de ideias que alimenta esta máquina infernal.

Só que a avaliação não é um caso meramente português (como tem mostrado sobejamente Jacques-Alain Miller, desde 2004). Com ela, outras "linhas de fuga" nos percorrem (a Europa, a Globalização), algo que vem de "fora" e que é cada vez mais difícil ou impossível de reduzir a um "dentro" (a uma qualquer "identidade" só nossa), um vórtice impulsionado pelos discursos da ciência e do capitalismo que tudo arrastam, no seu imparável movimento, até à mais impessoal e completa "desterritorialização".

Pensar Portugal e os portugueses não será ainda, neste contexto, uma tentativa desesperada, narcísisca, de suster a respiração, por assim dizer, antes da queda na vertigem da Alteridade que aí vem, que já mora em nós? Não continuamos desta forma a querer ser portugueses antes de sermos homens?

1.9.09

O preço do gozo

O número hors-série da revista francesa "Le Point" (Julho-Agosto de 2009) é integralmente consagrado a um tema milenar e caro aos tempos que correm: a felicidade.

Sobre o tema da felicidade correram já rios de tinta ao longo do tempo: quer seja "a felicidade à antiga" (Platão, Aristóteles, Epicuro, Séneca, Cícero...), a "felicidade trágica dos modernos (Rousseau, Kant, Aldous Huxley ou Camus...) ou a visão ocidental ou oriental sobre a felicidade, o que é certo é que esta não deixou de constituir matéria de reflexão e, sobretudo, de digressão. Discorre-se em torno de algo que não há: uma fórmula, uma definição única. A tradução actual deste fenómeno é a proliferação de toda uma literatura (mais ou menos light) que arrisca fórmulas atrás de fórmulas.

O que é novo, hoje, na felicidade não é o tema, mas o enfoque: ela deixou de constituir uma aspiração, um desejo para transformar-se num dever, numa obrigação. É aquilo a que o conhecido escritor e filósofo Pascal Bruckner chama, num texto introdutório, "a tirania da felicidade" (pp. 7-9). Este é um tema, aliás, que o autor já desenvolvera em livros anteriores, nomeadamente: A Euforia perpétua - Ensaio sobre o dever de felicidade 2000).

É neste texto, dedicado à tirania da felicidade, que o autor fala de uma mudança ocorrida em meados do século XX, mas que não deixou de acentuar-se ao longo das décadas seguintes: o crédito.

A concessão de crédito implicou uma mudança na forma como o sujeito se relaciona com o tempo, mas também com o gozo: até então o sujeito, para gozar (de um bem) tinha de esforçar-se, trabalhar a fim de conseguir os meios que lhe permitiriam gozar um dia, mais tarde. A consequência é que a "realidade" ia adiando o "prazer", a hora de gozar, para um futuro cada vez mais longínquo e incerto. O gozo era assim relegado, na maior parte dos casos, para o domínio do sonho, da utopia, do além (mola, afinal, de muitas religiões).

Com o crédito, o cenário inverte-se: goza-se primeiro (a crédito) antes de pagar o respectivo preço. A consequência é que, em muitos casos, é impossível pagá-lo. O crédito é a outra face da dívida. A civilização do crédito gera cada vez mais "sobre-endividados" do gozo. Um gozo impossível de pagar, de transaccionar. Um gozo onde falta a moeda do desejo.

Será o desejo (aquele mesmo de que falava Sócrates no "Banquete" de Platão) o preço certo para o gozo?

31.7.09

Olhar para outra coisa

Ver não é a mesma coisa que olhar. Os cegos, por exemplo, ainda que não possam ver, podem olhar.

O olhar não se detém; é errante por natureza. Não se fixa. Ver é fixar o olhar. Para onde se dirige, então, o olhar daquele que olha, atento ou indiferente ao que vê?

Tendo, há algum tempo atrás, de deslocar-me ao Norte de Portugal por razões do foro académico, aproveitei para respirar um pouco os ares de Guimarães. Nesta bela e tranquila cidade, berço da nação portuguesa, há um castelo, como sabemos.

Havia turistas que entravam, enquanto outros saíam do castelo. Os que entravam (na verdade eu só pude transpor o limiar da entrada, visto que a hora do encerramento se aproximava) subiam, quase sem excepção, para os parapeitos das muralhas, olhando a paisagem que ficava em redor do castelo.

É algo em que muitas vezes (e em muitos lugares) eu tenho pensado. Entramos num castelo, numa torre...simplesmente para olhar...o que está cá fora. O interior e o exterior, em vez de serem lugares opostos, são como que atados, con-torcidos ou enovelados pelo fio do nosso olhar.

Não é a coisa vista que nos move, mas o olhar (para outra coisa) que ela nos suscita. É assim, também, a natureza do desejo: um desejo de outra coisa.

21.7.09

O nariz de Michael Jackson

Como todo o artista (e homem!) que se preze, Michael Jackson era um poço de contradições: ao mesmo tempo que ganhava rios de dinheiro, morreu atolado em dívidas; enquanto o seu corpo se entregava ao martírio da transmutação (de um negro vivo para um branco cadavérico), à procura da mítica beleza ou harmonia entre a imaginação e a realidade, os seus "telediscos" exploravam constantemente a fealdade mais distorcida e excêntrica; ao mesmo tempo que foi obrigado a crescer demasiado depressa, por obra e graça da "fantasia" do pai, ficou condenado a viver na "terra do nunca" (Neverland), por obra e graça da sua própria fantasia.

Michael Jackson não gostava de ver-se ao espelho (diz algures) nem de falar: fazia-se ver, expondo-se. Fazia-se olhar.

O pai (que pai era este?) costumava dizer que não era o papá de ninguém, enquanto chicoteava com o cinto o primeiro dos filhos que se atrevesse a cometer a mais pequena falha na execução musical.

Ao mesmo tempo que dava como exemplo o trabalho de Michael (ponham os olhos nele!), o pai costumava zombar do seu nariz (feio e achatado).

De todas as metamorfoses a que foi progressivamente sujeito o corpo de Michael, talvez a mais espectacular se prenda com o nariz. Michael Jackson fez literalmente o contrário do que é hábito dizer às crianças: não mexam no nariz! De facto, ao longo da vida ele não fez outra coisa: mexer e remexer no nariz.

Ele odiava tanto o seu pai que às vezes chegava a vomitar. Consta que ele foi excluído do testamento de Michael. Mas não foi a sua vida toda (ou quase) movida por isso mesmo que ele parecia odiar tanto, em particular essa frase, essa frases vociferadas por esta autêntica père-version, como diriam os franceses?

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. O pai de Michael Jackson era tudo menos indiferente para este.

18.6.09

Tele-novelas

Em Portugal (e provavelmente em muitos outros países) os telejornais duram que se fartam. Parecem infindáveis. Elevam à dignidade de acontecimento a mais pequena banalidade, o assunto mais irrisório.

Numa sociedade que se pretende absolutamente "transparente", em que todos e cada um são chamados a confessar, a expor, a devassar a intimidade uns dos outros, os telejornais seguem a maré.

Onde tudo vale o mesmo, nada tem valor. Onde se faz acontecimento de tudo, nas se inscreve ou deposita. Não há sedimentação, real, das palavras que se dizem, das imagens que se agitam.

Ao mesmo tempo - e estranhamente - há coisas sobre as quais nunca se fala, pesando sobre elas um grande silêncio. É como nos vastos hipermermercados que parecem ter um pouco de tudo, mas, se procurarmos bem, há coisas que pura e simplesmente nunca lá estão. E essas coisas são, porventura, o que faz falta...

Não é a cultura, hoje, um grande, vasto e muitas vezes entediante hipermercado de ideias-feitas? Talvez seja necessário actualizar o dicionário de Flaubert!

1.6.09

Sobre-voos

Há quem diga: Filipe, há muito tempo que o teu blogue está parado!
Itálico
É verdade, respondo, mas a razão principal é porque eu não estou. Tenho andado em movimento.

É conhecido o gosto do nosso querido poeta, Fernando Pessoa, pelo movimento imóvel, pela viagem parada ou o teatro estático.

Eu tenho, porém, andado em movimento num outro sentido, mais exterior: por exemplo, de Lisboa a Paris, onde escutei uma conferência "memorável" de Jacques-Alain Miller, não só por razões intrínsecas (que já bastariam), mas igualmente por razões extrínsecas. Com efeito, para ouvir até ao fim não apenas o que ele disse na sua conferência, mas igualmente os comentários que esta suscitou nos ouvintes, acabei por chegar um pouco atrasado ao aeroporto. A consequência foi a seguinte: o que disse Miller no final dessa manhã (10 de Maio), durante o Congresso da New Lacanian School/Nouvelle École Lacanienne, tornou-se, para mim, na fala mais cara de sempre.

Quando contava, a colegas e amigos, o que tinha acontecido, ocorreu-me dizer "MILLAIR-FRANCE": uma espécie de avião homofónico para sobrevoar, com algum humor, o in-suportável da coisa.



Outros movimentos mais recentes ocorreram, igualmente de avião: não para ouvir, desta vez, mas para falar. Ou melhor: ouvir e falar. Pelo terceiro ano consecutivo, fui convidado para ir ao Brasil, a Curitiba, falar nas Jornadas de Direito e Psicanálise, um acontecimento verdadeiramente empolgante não só pelo carácter inédito do trabalho que aí se realiza, mas também pelo ambiente, pela atmosfera que o rodeia.

Este ano, o que serviu de base à nossa reflexão foi um livro de Clarice Lispector (A Hora da Estrela), alguém que não cessou de escrever, de acercar-se do impossível de dizer por meio da escrita, mesmo se esta - como ela própria afirma na dedicatória do livro- lhe atrapalhava a vida.

Talvez, então, aquilo que nos "atrapalha" a vida não seja simplesmente para descartar ...

14.4.09

Felicidade e contingência

Há cada vez mais livros (eventos, programas, workshops...) que se propõem revelar a fórmula ou a receita da felicidade. O princípio (quando a coisa é minimamente séria e não mera charlatanice) é que existe uma fórmula (ou um método) passível de ser transmitido de "mestre" a "discípulo", mas também que cada um de nós é ou pode tornar-se "digno" ou "merecedor" da felicidade.

É contra esta ideia (ingénua, absurda ou oportunista) que se insurge, por exemplo, o filósofo italiano Giorgio Agamben num pequeno texto intitulado "Magia e Felicidade". Segundo ele, a felicidade teria mais a ver com uma certa "magia", impossível de prever ou controlar, e que não resulta de qualquer espécie de prémio ou merecimento por um trabalho bem feito. A felicidade, quando acontece, tem algo de excessivo, fora da norma e perfeitamente contingente e inesperado.

Num lugar à beira rio, na cidade de Lisboa, há um bar com uma esplanada. Chama-se: À Margem. Como estava frio lá fora, decidimos ficar na parte de dentro daquela autêntica janela aberta para o rio Tejo.

Entretanto, começou a chover. O sol a pôr-se banhava o rio a jusante enquanto chuva, a montante, escurecia o seu lado oposto.

De súbito, os presentes soltam um "oh" de admiração, encaminhando-se mecanicamente, um após outro, em direcção à rua. Foi então que reparámos, com assombro, naquela verdadeira epifania: por entre a chuva e a luz, o céu envolto em nevoeiro e a dança das ondas, um arco-íris, de cores magistrais, re-pousava nas águas mesmo à nossa frente. E como se não bastasse, um segundo arco-íris, embora menos nítido, veio juntar-se ao primeiro.

Os elementos concertaram-se entre si para criar aquele momento de "magia". Saíram todos, felizes - e não só os que mereciam - de telemóvel em riste para fixar aquele momento único.

Nós também ficámos, felizes, a olhar. Sem máquina fotográfica, sem telemóvel, pois há momentos, únicos, que têm mesmo de ser vividos.

Nunca tínhamos visto nada assim!

26.3.09

Um chapéu bonito não promove ideias na cabeça

Um bairro é em princípio habitado por pessoas vivas que têm a capacidade de se mover dentro do bairro, de um lado para o outro, de entrar ou sair dele.

De vez em quando há pessoas que saem e não voltam: ou porque mudaram definitivamente de bairro, tendo ou não mudado de vida, ou porque faleceram, não tendo já, por isso, meio de mudar.

Num certo sentido, morrer não equivale a deixar de "existir": as "almas mortas" (como diria Gogol) continuam a ex-sistir simbolicamente, enquanto o poder do Verbo as levantar do "chão do mundo".

Podemos imaginar todo um bairro habitado por "almas mortas" que agem (fazem movimentos, conversam - mesmo que seja apenas consigo mesmas - passeiam ou interrogam-se...) graças unicamente ao poder do Verbo, da Palavra, em particular da Palavra escrita.

É um bairro assim que o escritor Gonçalo M. Tavares (a quem Saramago vaticinou o prémio Nobel da literatura e de quem disse que escrevia tão bem que até lhe apetecia bater-lhe) imaginou e tem vindo a concretizar desde o ano de 2002.

O bairro é habitado por um conjunto de "senhores", poetas e escritores de renome, como o Senhor Valéry, o Senhor Calvino ou o Senhor Breton , entre outros.

É possível ver, na planta do bairro, que há casas prontas para receber os novos inquilinos que aí virão morar. Eles já estão de algum modo presentes, sob a forma de um nome próprio que os aguarda, ainda que não tenham chegado efectivamente ao bairro. Tal como na vida, há algo que dispõe, que determina previamente os lugares que cada um vai ocupar. Quando e como serão efectivamente ocupados é assunto que depende do "ritmo" da escrita - depurada e acutilante - de Gonçalo M. Tavares, cujo estilo veio soprar uma aragem fresca sobre a literatura portuguesa.

É saboroso voltar a ler alguém que abdica de todo e qualquer artificialismo estéril (o seu modo de escrever é limpo, escorreito, clássico, como já não se via há muito na literatura portuguesa recente, sempre em busca de suprir a ausência de ideias com arabescos formais), para dizer o que há de mais estranho, imprevisível e sem nome na poesia e na vida.

Um dos últimos habitantes deste bairro singular é "O Senhor Breton". Sentado, em casa, o senhor Breton puxa do cigarro, fuma um pouco, liga o gravador e dá início à "entrevista". Na verdade, uma auto-entrevista, toda feita de perguntas sem resposta, como se cada uma das questões que ele vai desfiando tivesse unicamente o propósito de abrir fissuras no campo da linguagem por onde espreitem "as fendas do mundo".

Daí que uma "chave de fendas" - como diz algures, o "Senhor Breton", com a ironia e o humor subtil que o estilo de Gonçalo M. Tavares lhe empresta - seja um instrumento mais precioso, porventura, que os olhos ou a inteligência abstracta.

Ficam três fragmentos, como aperitivo, da "entrevista" que o "senhor Breton" se faz:

"A vida inteira encontra-se, assim, recoberta por palavras. Apenas com vinte e seis letras se dá o nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à ausência desta última letra do alfabeto. E a qualquer língua falta uma última letra." (4ª Pergunta, p. 23).

"De resto, parece-me que o importante no mundo é existir a compreensão de que um chapéu bonito não promove ideias na cabeça. Ou seja: a estética é um assunto que pouco dialoga com o raciocínio. Um homem a dançar pode ser bonito, mas um homem a pensar nunca é bonito. E se um homem dançar enquanto pensa esse homem terá pensamentos estúpidos, e se um homem pensar enquanto dança, trocará os pés e acabará por tropeçar. Não é uma regra, mas poderia ser uma regra: dançar é incompatível com a resolução de uma equação de segundo grau." (7ª Pergunta, p. 42).

"Mas voltemos à questão, senhor Breton (...): atendendo a certos nomes, não se pensa de imediato em certos acontecimentos? Como a chave de fendas, por exemplo. Não é lógico associar-se este nome a um acontecimento mítico, capaz de abrir as fendas do mundo, porventura mesmo a fenda mais negra, que é aquela por onde se vê, ao fundo, a morte? Não será esta chave de fendas apenas uma especialidade desse instrumento maior?" (Idem).