4.2.10

Na ordem do dia

A avaliação está na ORDEM do dia.

É já neste próximo Domingo que terá lugar, em Paris, um encontro sobre o tema: Évaluer tue.

Paralelamente, o nº 10 da revista "Le Nouvel Âne" faz-se inteiramente eco desta questão.

É possível, desde já, aceder ao Editorial da revista, escrito por Agnès Aflalo.

Aqui fica um excerto:
“La  culture de l’évaluation repose sur l’idée simple qu’il n’y a  presque pas de différence entre l’humain et l’objet. Simple  question de qualité à chiffrer. La qualité est alors devenue le  maître-mot au nom duquel la traque des vivants a commencé,  car la qualité, qui fait la différence, c’est la vie elle-même.”


É uma questão que interessa a todos, mesmo que apenas alguns pareçam interessados nela


Pode encomendar-se a revista directamente por Internet.

Uma nova alegria?

Numa época triste como esta, em que tudo parece ficar cinzento e "ordenado" (desde tempos remotos sempre houve, aliás, quem pretendesse, por todas as boas razões do mundo, submeter o CAOS à ORDEM), poderá a psicanálise trazer uma NOVA ALEGRIA?

Em tempos, foi também uma certa DESORDEM subjectiva que me fez entrar em análise. E nem o método cartesiano, apelando à CLAREZA e à DISTINÇÃO, foi capaz de  fornecer REGRAS PARA A DIRECÇÃO DO ESPÍRITO que me ordenassem adequadamente o  pensamento e a vida!

O pensamento é um bicho estranho! Dá voltas e mais voltas. Ao longo de vários anos procurei ORDENÁ-LO, pô-lo na ORDEM. Escovei ideias e palavras em busca de um estilo limpo. E não me envergonho completamente do resultado.

Mas a vida é assim! A Minha psicanálise não me trouxe mais gosto pela ORDEM; deixou-me, pelo contrário, um pouco menos limpo, menos escovado, mais desordenado. É por isso que eu sinto, numa altura em que todos exigem ou se precipitam, correndo atrás de uma palavra-de-ordem (por aqui se vê o poder do que Lacan chamava o significante-mestre), em direcção à ORDEM (dos médicos, dos psicólogos...quem sabe se um dia dos professores, dos psicanalistas, dos filósofos, pois vê-se de tudo neste mundo!), que DEFINITIVAMENTE quero ser desordenado, tal como é SINGULARMENTE cada um de nós!

Quero que a minha luta, o meu combate não seja pela ORDEM (mesmo se também não pretende ser pelo CAOS), mas pela SINGULARIDADE!

E isso, acreditem, traz-me uma NOVA ALEGRIA!

28.1.10

E agora falando a sério!

Ser sério, dizia Lacan no Seminário XX, é estabelecer a série.

Clara Pinto Correia, que tinha andado até agora a brincar aos cientistas , decidiu finalmente "publicar" uma coisa  séria: uma série de fotografias em que se expõe, dando-se  a ver ao mundo no instante de ser vir. Pela beleza da coisa, diz algures. Com muita naturalidade. Fazendo-se olhar pela câmara fotográfica do marido numa série de "Sexpressions".

Lacan, que costumava brincar com coisas sérias, chegou um dia a inventar um termo (poubellication) para caracterizar aquilo que ele próprio dizia fazer às vezes: publicar. Publicar é enviar coisas para o lixo (poubelle).

Na era da Internet, há cada vez mais "poubellicações": para graça de uns e desgraça de outros. Para gozo de muitos.

Eu próprio não resisto a "poubellicar" de vez em quando. Só não fui ainda tão ousado, tão sério...

19.1.10

Avaliar mata


Diz-se que o Inverno tem sido bastante rigoroso por essa Europa fora. E é verdade. Mas há um furacão ainda mais tempestuoso que, desde há alguns anos, varre com impetuosidade o velho continente: chama-se "avaliação".

Pretende submeter-se tudo à avaliação, avaliar tudo. O propósito tem ares de seriedade. Quem pode, em boa fé, contestar a exigência de avaliar teorias e práticas?

A avaliação é uma coisa boa. Até os professores, quando saíram à rua (mais de cem mil por duas vezes consecutivas), se apressaram a dizer que não estava em causa a avaliação, pois eles queriam ser avaliados, mas apenas aquele modelo de avaliação.

Ainda estamos no começo. A coisa vai aquecer. Como outras "pandemias" que agora estão na moda, a avaliação vai expandir-se rapidamente, matando toda e qualquer espécie de "singularidade", de criatividade, em nome do rigor, da transparência e outros nomes sonantes, em tudo quanto é actividade humana.

Por isso, é bom que se comece já a reflectir se querer avaliar tudo não significa tudo querer matar. Na verdade, como diz o cartaz do Fórum que vai ter lugar em Paris no próximo dia 7 de Fevereiro de 2010, jogando com o poder da homofonia, "avaliar tudo mata (évaluer tue)".

Uma causa perdida?

É uma "guerra" que tem quase um século. Em 1926, Freud escreveu um artigo intitulado: "A questão da análise leiga". Leigo significava, neste contexto, "não médico".

O artigo de Freud tinha como causa imediata a acusação de charlatanismo dirigida pelas autoridades vienenses a Theodor Reik pelo facto de este exercer a psicanálise não sendo médico. Freud propõe-se mostrar, neste artigo, que o facto de ser médico não garante, só por si, uma especial capacidade para lidar com a causa analítica, carecendo esta de uma "formação" peculiar. É nesse sentido que podemos afirmar que o desejo de Freud se revela como sendo fundamentalmente laico.

Esta via da "laicidade" da psicanálise foi prosseguida, mais tarde, por Lacan, ao não discriminar entre as diversas proveniências dos membros da sua Escola (sendo indiferente, à partida, se estes eram médicos, psicólogos ou outra coisa qualquer), ao mesmo tempo que exigia um rigor apurado e um desejo decidido por parte de cada um deles. Lacan chegou mesmo a dizer, a certa altura, que o psicanalista só se autoriza por si mesmo, ou seja, que não importa a formação que ele traz de base, mas o desejo que desponta no processo de uma análise, a qual, sendo levada até ao fim, se pode revelar didáctica.

Em 2003, quando a psicanálise, juntamente com as psicoterapias de inspiração psicanalítica, sofreram a primeira onda de choque de um "sismo" que teve o seu epicentro numa simples emenda legislativa (a "Emenda Accoyer), sendo mais tarde seguida por diversas réplicas (Relatório INSERM, Livro Negro da Psicanálise...), houve quem se lembrasse do artigo de Freud. Há acontecimentos que nos avivam a memória. No maremoto de reacções diversas e efusivas que se seguiu aos referidos acontecimentos, nasceu a Associação para a Laicidade da Psicanálise; associação esta que seria entretanto dissolvida.

Qual é, em 2010, a situação?

Numa carta recente (Jounal des Jounées), o psicanalista Yves Depelsenaire manifestava surpresa por ver que a Escola parecia integrar cada vez mais o princípio de que, de ora em diante, só os médicos ou psicólogos poderiam aspirar a fazer parte dela.

Depois de tudo, não deixa de ser irónico! Não digo cínico, uma vez que o cinismo antigo apostava no “caminho mais curto”; pelo contrário, neste caso, é após um longo caminho que se chega a isto: ao princípio do terceiro excluído, isto é, dos que não são médicos nem psicólogos.

Há dentro da Escola muitos que ainda se encontram numa tal situação (como é o caso de Yves Depelsenaire e do próprio Jacques-Alain Miller, salvo erro), mas eles serão cada vez mais raros. Uma espécie - como dizia Philippe Hellebois numa outra carta - em vias de extinção: os "nem...nem". Nem médicos, nem psicólogos.

Em resposta à carta de Yves Depelsenaire, Jacques-Alain Miller insistia, a certa altura, que não se trata sobretudo de saber o que a Escola pode fazer por nós (segundo o excessivo desejo de reconhecimento que mobiliza alguns dos que a demandam), mas o que cada um de nós pode fazer pela Causa.

Não deixa de ser um modo bastante pertinente de ver a questão. Todavia, que causa é esta quando ela parece excluir o que a extimiza, descentra, singulariza, laiciza, isto é, o que faz objecção ao todo, à unanimidade e ao “unanimismo”? O que a “des-ordena” radicalmente porque não resulta da “Ordem” (qualquer que ela seja, mesmo que seja a palavra-de-ordem), mas de um encontro, singular e contingente, com a causa incurável de cada um.

Estaremos, finalmente, a assistir ao depor as armas? É esta uma guerra perdida? Uma “denegação” em acto, ou seja, o reconhecimento de que afinal as “autoridades” (que acusavam Th. Reik de charlatanismo ou os psicanalistas de “impostores”) ganharam a guerra, ainda que se diga e repita que “não” em diversos fóruns?

A ver vamos! O debate continua. Yves Depelsenaire, na resposta que deu a Jacques-Alain Miller, dizia que é preciso defender com convicção o princípio da psicanálise leiga (psychananalyse profane).

Esta tem sido também a minha convicção desde que há quase vinte anos fui atraído pela causa psicanalítica, mesmo não sendo médico nem psicólogo.

16.1.10

Moral da história

Temos ouvido nos últimos tempos uma série de vozes credenciadas apelando à "poupança", ao "corte" ( nos salários), ao "controlo" (do défice), à "moralização" (das finanças, da economia), à "contenção" (nos gastos, no consumo), enfim...

Provindos do capitalismo, tais apelos não deixam de parecer um tanto ou quanto suspeitos. Não é a essência do capitalismo, afinal de contas, a elevação do consumo ao zénite? O orgasmo do consumo, do hiperconsumo (Lipovestky)?

Não espanta, por isso, que as pessoas andem confusas, "desbussoladas" (Forbes). Devem ou não devem consumir? Se não há consumo, o capitalismo murcha, não é verdade?

O consumo é o viagra do capitalismo. Sem consumo, o capitalismo não infla, não se põe de pé. Dá-se a grande "deflação", a disfunção eréctil do capitalismo, se me permitem a analogia.

O que exigem de nós os novos grandes "moralistas" do capitalismo é, por assim dizer, que fiquemos "tesos"...sem tesão!

Moral da história?

Ou teremos já, como pretenderam alguns, chegado ao fim da história?

Em tempos assim, os "moralistas" surgem de onde menos se espera.

15.1.10

Será que é desta?

Tantas vezes se disse que Freud estava errado, ultrapassado, acabado...

Será que é finalmente desta?

A revista Philosophie Magazine decidiu lançar mais uma acha para a fogueira do debate colocando frente a frente Jacques-Alain Miller e Michel Onfray sob o lema: Acabar com Freud (En finir avec Freud)?

O resultado sairá no próximo número da revista (nº 36, 2010, disponível a partir de 21 de Janeiro, juntamente com um dossiê sobre Freud). Uma ante-visão do debate está já acessível em linha.

A não perder!

20.11.09

(A)normalidade(s)

As palavras não são as coisas e por isso movem-se e deslizam, prendem-se e desprendem-se umas às outras, criando, nessa movimento, novos efeitos de sentido.

O sentido flutua como um barco de papel à flor da água - como se dizia do espírito de Deus no livro do Génesis - arriscando naufragar, imergir a cada momento.

Tal como o barco de papel, o sentido é impulsionado pelo vento do uso ( e do abuso), mudando a cada instante de direcção. (Perdão: eu quis dizer: direção!)

Basta, por vezes, o bater de asas de uma borboleta, algures, para que chovam aqui novos efeitos de sentido. E toda a vida muda. Um simples bater de asas de um novo sentido pode fazer tremer a vida toda. (Perdão: eu deveria dizer não-toda, pois a vida toda é sonho de idiota; mas eu, como homem, sou também meio idiota, não? Li certa vez um livro que tinha o sugestivo título: História de um idiota contada por ele mesmo. Félix de Azúa. Um homem, por sinal. Mas além de idiota, eu não sou normal.)

O governo (em sintonia com grande parte da oposição) prepara-se para aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. É normal. Todos os ventos que sopram, de um lado e do outro, parecem estar em sintonia: é a evolução normal das coisas. Aliás, em consonância com o inconsciente freudiano - quem diria - que desconhece o Outro sexo.

Em jeito de piada, poderíamos actualizar uma velha frase de Louise Vilmorin: hoje em dia, já só os padres querem casar-se. E os homossexuais, diríamos nós!

E é normal, pois se não fossem os padres e os homossexuais, o que seria da velha e sagrada instituição do casamento com tantos divórcios e separações entre os demais?

Talvez porque as mulheres já não fiquem em casa, ou já não queiram simplesmente cuidar dos filhos ou dos maridos...como filhos. E é normal. Elas têm o mesmo direito de ir à guerra, à luta...política. É normal a igualdade. É normal a paridade, como agora se diz. Se elas não querem, obrigam-se...em nome da igualdade e da paridade, como se vê nos parlamentos nacional ou comunitário. (Espero que em nome da paridade não obriguem os homens a parir, se bem que o cinema já tenha explorado essa via).

Tudo muda. As escolas deixaram de ensinar e os alunos de aprender. O que é mais normal (mais regular) é encontrar hoje em dia cursos irregulares nas escolas. E é normal que assim seja. Se tudo muda, porque haveriam as escolas de ficar paradas?

Quando vou almoçar ao restaurante com colegas ou amigos e peço um café...normal, todos se riem de mim. O que é isso, um café normal? Se o empregado diz, um café? - todos respondem: sim, uma café cheio, a escaldar, curto, pingado, abatanado..., e eu digo simplesmente, desconsoladamente: um café normal! Já me aconteceu o empregado ficar de cabeça "abatanada" a olhar para mim, como se não tivesse bem a certeza do que eu estava a pedir.

Um bater de asas... e o sentido já não é o mesmo. O que era claro, anoitece; o que estava à superfície da corrente, submerge; o que era firme, torna-se inseguro.

E é normal!

Só eu, que teimo em pedir um café normal, decididamente não sou normal.

Será normal?

2.11.09

Caim

O Plano de leitura, em relação ao qual Saramago se mostrou, desde o princípio, bastante céptico, permitiu concluir o que já todos sabiam: os portugueses lêem pouco, muito pouco, quase nada. Porém, tal não os impede de falar de quase tudo e - quem diria - até dos próprios livros...que não leram. É o caso do último livro de Saramago: "Caim". A rádio, os jornais, a televisão...têm dado uma cobertura massiva à polémica em torno deste livro.

Caim está para o Antigo Testamento como O Evangelho Segundo Jesus Cristo estava para o Novo. Se num caso se tratava de humanizar o Filho do Homem, escovando-o de toda e qualquer divindade, agora trata-se de ajustar as contas com o próprio Deus, bem como com todos os demais nomes do Pai, dos Patriarcas sem vergonha da humanidade (Adão, Noé, Abraão, Moisés...) que estão dispostos, se for preciso, a sacrificar os seus próprios filhos ou o seu próprio povo para satisfazer a cruel e obscena Vontade de Deus.

Caim vai percorrendo os diversos cenários em que decorrem tais episódios bíblicos graças a uma engenhosa estratégia narrativa que consiste, por assim dizer, em "espacializar" o tempo, como se os diferentes momentos que o tecem (o antes, o depois) fossem compossíveis, isto é, pudessem coexistir ao mesmo tempo. Caim limita-se, por isso, a errar entre os diversos lugares (e momentos) célebres do Antigo Testamento como se errasse apenas entre vários "presentes".

Por meio de semelhante estratégia, o narrador vai revelando, passo a passo e de forma cada vez mais radical, sem meias tintas ou contenção nas palavras, o avesso da "história oficial". Tal propósito não deixa, aliás, de estar em consonância com toda a obra de Saramago: tratou-se sempre de dar voz (por meio do romance, do ensaio ou do ensaio de romance) e de tomar partido pelos que foram, de uma forma ou de outra, esmagados, derrubados ou excluídos pela história oficial. A função da escrita consiste, neste caso, em reescrever a história de modo a permitir que a estrutura de ficção em que esta assenta não abafe por completo o seu núcleo de verdade ou o seu grão de real.

Caim não se deixa iludir ou enganar pela dignidade ou respeitabilidade (suposta) dos nomes do Pai consagrados pela tradição bíblica. Ele sabe que há um gozo, um proveito ou usufruto por detrás dessa suposta dignidade ou respeitabilidade. Talvez por isso ele seja condenado a errar, condenado à errância. Eis por que ele nutre uma raiva, um ódio de morte ao próprio Deus. No limite, tudo o que ele faz poderia resumir-se numa única frase: "tentativas para matar o próprio deus".

Caim vai-nos sendo apresentado como um grande copulador, alguém sem problemas de erecção, que está sempre pronto para satisfazer o desejo sexual de toda e qualquer mulher, desde a mais exigente, Lilith, até às noras ou à mulher do próprio Noé. E tudo isto com a estranha condescendência de Noé e do próprio Deus, uma vez que é preciso procriar, crescer e multiplicar-se. Mas é nesta parte que a história vai ficando subitamente mais clara: em última análise, o alvo da pulsão que move Caim - também ele "levantado do chão" para onde a escolha absurda de Deus, preferindo a oferenda do seu irmão Abel, o havia escorraçado - é outro, como se quisesse f. o próprio Deus na impossibilidade de o matar.

Este é um livro que tem o ódio como personagem principal. Não é Caim (o protagonista do romance) ou o próprio Deus (judaico-cristão), mas o ódio. E uma pergunta nos fica (pelo menos a mim me ficou): a quem se endereça este ódio se Deus está morto, ou se morreu há muito tempo, tanto no dizer de Nietzsche como do próprio Saramago, ateu convicto.

A não ser que o ódio, como dizia Freud algures, não seja exactamente o contrário do amor (pois o contrário do amor é a indiferença), mas a sua continuação por outros meios. Se José Saramago abdicou de acreditar em Deus, não deixou de servir-se dele como sintoma. Deus é um dos nomes do sintoma...de Saramago, o seu amoródio por excelência: algo sobre o qual não cessou jamais de falar, de escrever, de discutir - "pois a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuam a discutir e a discutir estão ainda".

Com muito humor, é certo, mesmo se o assunto não lhe tem dado, até agora, grande vontade de rir

8.10.09

A era do pânico

Para além dessa coisa mais ou menos viscosa, fluída e onde cabe tudo, a que se convencionou chamar - vá-se lá saber porquê! - New Age, o que caracteriza realmente a nossa época?

Desde há vários meses, quase não se tem ouvido falar de outra coisa (salvo algumas anedotas protagonizadas pelos mais ilustres representantes da nação, da direita à esquerda): VEM AÍ A GRIPE A!

Talvez seja a falta de assunto mais relevante (pois o futebol já não desfralda bandeiras como outrora) que eleve a uma tal dignidade algo que não passa, no dizer de algumas conceituadas vozes, de uma "gripe banal".

Em Portugal, onde a verdadeira tragédia não resulta de não se lavar suficientemente as mãos - visto que passamos a vida a lavar as mãos disto e daquilo - mas de como nos (mal) conduzimos na estrada e na vida, há coisas sobre as quais o excesso de informação lança um pesado manto de silêncio.

É verdade que não se trata de um mal exclusivamente nosso. Na era da informação global, o espaço e o tempo estreitaram-se de tal modo que ficaram reduzidos à espessura de um instante: ao mesmo tempo e em toda a parte, como um deus ao contrário, o mundo inteiro ameaça cair sobre nós, esmagando-nos.

Porém, o excesso de informação não gera mais conhecimento (mesmo que se fale muito da sociedade da informação e do conhecimento, como se fossem termos equivalentes), mas gera mais pânico.

Na verdade, cada vez que ligamos a rádio ou a televisão, por exemplo, somos bombardeados pelos mais diversos cataclismos que sucedem um pouco por toda a parte no mundo. A era da informação "concentrou", por assim dizer, na dimensão do ponto e na espessura do instante o que estava outrora disperso pelos mais variados lugares do espaço e momentos do tempo. Agora, o mundo inteiro, o universo inteiro, com suas permanentes colisões ou cataclismos, cai todo sobre nós de uma só vez.

Por outro lado - e contrariamente ao que pensam ou afirmam alguns - talvez deste excesso quotidiano de informação em torno da gripe A (é um exemplo) não saiam comportamentos mais "cuidadosos", mas antes uma nova e resistente indiferença. Com efeito, falar demasiado numa coisa, segundo um modelo de fala cada vez mais "vazio", como um disco que gira e repete sempre a mesma música, não "inscreve" necessariamente um acontecimento, mas pode até, pelo contrário, gerar mais e mais indiferença.

O que vale, apesar de tudo, é que não faltarão novos fármacos e terapias diversas para combater o pânico. Haverá também um fármaco ou uma vacina contra a indiferença?

4.10.09

Nos confins da modernidade

Foi graças ao fotógrafo contemporâneo Hans Sylvester - um alemão vivendo no sul de França e que fez a opção pelo "livro" em detrimento das galerias de arte - que estas imagens nos chegaram dos confins da civilização: uma "primitiva" tribo africana que habita as margens do Omo, um rio que atravessa a Etiópia, o Sudão e o Quénia e que faz uma arte nada "primitiva".

Contrariamente à ciência e à tecnologia, que evoluem de forma clara e irreversível, fazendo naufragar as velhas teorias, procedimentos e visões do mundo, na arte não há "evolução"; pelo menos, no mesmo sentido.

É por isso que muitos artistas contemporâneos se sentiram - e continuam a sentir - atraídos por esta arte, pelo saber fazer das tribos ditas "primitivas". É que, efectivamente, mesmo sem entrarem no rio da modernidade, elas já se banham em águas da mais pura vanguarda.