Tive há algum tempo atrás a oportunidade de ver uma exposição de Isabel Garcia na sala de Exposições temporárias do belo Mosteiro de Alcobaça, património da humanidade. O título da exposição remete para a "tempestade" que tanto pode agitar os elementos (físicos) como as ideias. Além disso, ela pode ser vista como uma metáfora dos tempos que correm: (a)tormentados pelas mais diversas "tempestades".
Mas aquilo que me interessou, acima de tudo, não foi tanto a desordem dos elementos que se manifesta através de raios metálicos, pedras de chuva e estrelas (espalhadas, como restos, ao longo da sala de exposição), mas o "poço de luz": uma estrutura cilíndrica em forma de poço, revestida interiormente por vidro espelhado, de tal modo que umas poucas lâmpadas acesas no seu fundo, davam a impressão de se multiplicarem até ao infinito, irradiando luz em todas as direcções.
Parece que o escritor japonês Tanizaki (1933) tinha razão: a estética ocidental está voltada para a luz. E não só a estética! Há que iluminar tudo, varrer a sombra do mundo! o imperativo do "olho absoluto" não dá tréguas (ver entrevista, ao lado, de Gérard Wajcman).
Tal imperativo mostra-se, até, nas mínimas frases, ditas (por exemplo) pelo professor X ao aluno Y: "Ele é um menino apagado".
Isto quer dizer: ele não se chega à frente, não se expõe como os outros (na era da exposição), não gosta dos brilho dos holofotes, preferindo a sombra.
O poder da luz é aqui tão forte - tão inconscientemente forte - que até aqueles que não brilham por se chegarem à frente, por serem como os outros, querem brilhar por serem diferentes, mas querem brilhar de qualquer maneira.
É verdade que também há aqueles, em número crescente, que não querem, que preferem não, que não desejam brilhar desta ou daquela forma e que se deixam simplesmente ficar. Apagados.
Resposta, irónica, à luz, ao olho absoluto que (a)tormenta o século XXI?
21.11.10
18.11.10
Cali-grafias
A Lello (Porto) foi eleita como a terceira melhor (mais bela) livraria do mundo (Lonely Planet´s Best in Travel 2011).
A quem nutriu, desde muito cedo, um grande amor pelos livros, esta notícia só pode encher de júbilo.
E aos outros também, embora por razões diversas.
Uma verdadeira cali-grafia arquitectónica, um templo à letra, uma terra da literatura - uma lituraterra, a Lello.
A quem nutriu, desde muito cedo, um grande amor pelos livros, esta notícia só pode encher de júbilo.
E aos outros também, embora por razões diversas.
Uma verdadeira cali-grafia arquitectónica, um templo à letra, uma terra da literatura - uma lituraterra, a Lello.
15.11.10
Desmedir a felicidade
Há cada vez mais políticos e economistas que advogam que deveria medir-se a "felicidade", tal como se mede, por exemplo, o PIB.
É uma ideia interessante. Na verdade, que importa que o PIB não cesse de crescer (ainda que este não seja o nosso caso, como é sabido) se a felicidade dos indivíduos não pára de murchar?
Contudo, a ideia de introduzir uma "medida" na felicidade (um conjunto de parâmetros susceptíveis de manipulação) não deixa de arrepiar. A felicidade tornar-se-á cada vez mais uma questão política e económica.
E, tal como já declaramos os nossos rendimentos, quem nos garante que não vamos ter de declarar, em breve, a nossa felicidade?
O imperativo da avaliação e da medida não conhece fronteiras. Que liberdade - que felicidade - restará então ao sujeito na era da "loucura quantitativa"?
É uma ideia interessante. Na verdade, que importa que o PIB não cesse de crescer (ainda que este não seja o nosso caso, como é sabido) se a felicidade dos indivíduos não pára de murchar?
Contudo, a ideia de introduzir uma "medida" na felicidade (um conjunto de parâmetros susceptíveis de manipulação) não deixa de arrepiar. A felicidade tornar-se-á cada vez mais uma questão política e económica.
E, tal como já declaramos os nossos rendimentos, quem nos garante que não vamos ter de declarar, em breve, a nossa felicidade?
O imperativo da avaliação e da medida não conhece fronteiras. Que liberdade - que felicidade - restará então ao sujeito na era da "loucura quantitativa"?
10.11.10
O dever de pensar
O tempo é de crise, diz-se.
Vivemos numa época - dizia Bernard-Henri Lévi no seu último livro - que não é só de crise mas, sobretudo, de uma grande confusão. Uma confusão generalizada. (Cf. De la guerre en philosophie, p. 7-10).
Aos que baixam os braços, de um lado, sentindo-se impotentes ante a fugacidade, a liquidez e a completa soltura dos acontecimentos - sem nada que os ancore, que os amarre - respondem, do outro, os imperativos da avaliação, da produtividade, cujo modelo é a azáfama - incansável e inútil (inútil?) - de um formigueiro ou a linha de montagem de carros altamente "cilindrados"...
O que fazer, então?
"(...) o dever de pensar, continua de longe, de muito longe, o mais elevado." É ainda Bernard-Henri Lévi que o diz.
Eis a guerra da filosofia. Mas será apenas, nesta época de muitas guerras, uma guerra da filosofia?
Vivemos numa época - dizia Bernard-Henri Lévi no seu último livro - que não é só de crise mas, sobretudo, de uma grande confusão. Uma confusão generalizada. (Cf. De la guerre en philosophie, p. 7-10).
Aos que baixam os braços, de um lado, sentindo-se impotentes ante a fugacidade, a liquidez e a completa soltura dos acontecimentos - sem nada que os ancore, que os amarre - respondem, do outro, os imperativos da avaliação, da produtividade, cujo modelo é a azáfama - incansável e inútil (inútil?) - de um formigueiro ou a linha de montagem de carros altamente "cilindrados"...
O que fazer, então?
"(...) o dever de pensar, continua de longe, de muito longe, o mais elevado." É ainda Bernard-Henri Lévi que o diz.
Eis a guerra da filosofia. Mas será apenas, nesta época de muitas guerras, uma guerra da filosofia?
8.11.10
Momentos críticos
No último número da revista Hurly-Burly, Jacques-Alain Miller dizia o seguinte acerca da "crise financeira" que tem assolado o mundo:
"O psicanalista é amigo da crise. Entrar em análise constitui sempre para um sujeito um momento crítico, que corresponde ou revela uma crise." (Cf. "Financial Crisis", Hurly-Brurly, nº 4, Outubro 2010, p. 203).
Sendo o nome de um "real desencadeado, impossível de dominar", ela é apenas, não obstante, o início de um "trabalho". É a primeira palavra, mas não a última.
"O psicanalista é amigo da crise. Entrar em análise constitui sempre para um sujeito um momento crítico, que corresponde ou revela uma crise." (Cf. "Financial Crisis", Hurly-Brurly, nº 4, Outubro 2010, p. 203).
Sendo o nome de um "real desencadeado, impossível de dominar", ela é apenas, não obstante, o início de um "trabalho". É a primeira palavra, mas não a última.
3.11.10
Darwinismo financeiro
Ocorre-me a seguinte imagem:
Alguém está caído no chão, com dificuldade de se levantar. Chegam transeuntes (ou não chegam, pois na era na internet não é preciso chegar para chegar) e, em vez de estenderem a mão à pessoa que está caída, começam a pontapeá-la com violência; a cada grito de dor ou de socorro, cresce a intensidade do pontapé.
Parece sádica, a cena; mas é apenas a ilustração - ainda que sádica - do que tem vindo a acontecer a alguns países na era do capitalismo de casino.
Os analistas - sujeitos supostos saber destas coisas - concordam em que alguns países estão a ser alvo de ataque por parte dos mercados internacionais, da especulação financeira porque são os mais débeis, os elos mais fracos da cadeia.
Darwin teve o cuidado de nos ensinar: só os mais fortes sobreviverão. Os que dão pontapés!
Alguém está caído no chão, com dificuldade de se levantar. Chegam transeuntes (ou não chegam, pois na era na internet não é preciso chegar para chegar) e, em vez de estenderem a mão à pessoa que está caída, começam a pontapeá-la com violência; a cada grito de dor ou de socorro, cresce a intensidade do pontapé.
Parece sádica, a cena; mas é apenas a ilustração - ainda que sádica - do que tem vindo a acontecer a alguns países na era do capitalismo de casino.
Os analistas - sujeitos supostos saber destas coisas - concordam em que alguns países estão a ser alvo de ataque por parte dos mercados internacionais, da especulação financeira porque são os mais débeis, os elos mais fracos da cadeia.
Darwin teve o cuidado de nos ensinar: só os mais fortes sobreviverão. Os que dão pontapés!
2.11.10
Educação impossível
Na era do "tudo é possível" (Hervé Castanet), o jovem e brilhante escritor Gonçalo M Tavares - um dos melhores que este chão em crise produziu - adverte no seu livro, Uma Viagem à Índia:
"E também não há isto:
aprendizagem do imprevisível. Não se ensina
o que não se prevê, o que é óptimo." (Canto IV, p. 179).
"E também não há isto:
aprendizagem do imprevisível. Não se ensina
o que não se prevê, o que é óptimo." (Canto IV, p. 179).
26.10.10
O instrumento conta
Numa entrevista concedida ao Jornal de Letras, Artes e Ideias acerca do seu último livro - Uma viagem à Índia -, o escritor Gonçalo M. Tavares dava a seguinte imagem: Se alguém sai à rua com um martelo na mão o mundo torna-se em algo de martelável.
O instrumento conta: ele lança na sombra tudo aquilo que está fora do seu raio luminoso.
Se o instrumento se chama, por exemplo, "Padrões de Desempenho" (segundo o último Despacho ministerial sobre a avaliação), o mundo transforma-se em algo de "padronizável": com muitos "indicadores" e "descritores", é certo, mas sem nenhuma atenção ao que é imprevisível, imponderável.
Desprovida da singularidade, a roda do moinho - pedra redonda e pesada - torna-se mais leve e gira mais depressa, uma vez que lhe falta grão.
Mas de que serve a uma roda rodar se lhe falta grão?
O instrumento conta: ele lança na sombra tudo aquilo que está fora do seu raio luminoso.
Se o instrumento se chama, por exemplo, "Padrões de Desempenho" (segundo o último Despacho ministerial sobre a avaliação), o mundo transforma-se em algo de "padronizável": com muitos "indicadores" e "descritores", é certo, mas sem nenhuma atenção ao que é imprevisível, imponderável.
Desprovida da singularidade, a roda do moinho - pedra redonda e pesada - torna-se mais leve e gira mais depressa, uma vez que lhe falta grão.
Mas de que serve a uma roda rodar se lhe falta grão?
25.10.10
Uma era cínica
O humor que se faz tende a resvalar cada vez mais para o "cinismo"; veja-se, por exemplo, o "Tubo de Ensaio" (Bruno Nogueira, TSF) ou aquele programa de que não lembro o nome e em que o mesmo Bruno Nogueira teve um diálogo deveras edificante com o seu entrevistador (?) Rui Unas (cito de cor, pois não me lembro dos termos exactos):
- E se eu te comesse agora?
Perante a anuência do seu interlocutor, os dois (Nogueira e Unas) parodiam um acto de sodomia ao vivo. No fim, Rui Unas remata do seguinte modo:
- Obrigado por teres sido meigo.
Longe vai O dito espirituoso nas suas relações com o inconsciente (como escrevia Freud há pouco mais de um século). O humor é, tradicionalmente, uma curva, um passar ao lado: o caminho mais longo entre dois pontos. Tal como defendiam os antigos "cínicos" - mas sem a convicção destes - o humor que se faz hoje em dia é cada vez mais objectiva e abjectivamente directo: "o caminho mais curto".
Há algum tempo atrás, alguém perguntava (creio que ao Bruno Nogueira); há limites para o humor? Ao que este respondeu: Não!
Nem sequer o "bom gosto" é já um limite para o humor; basta ouvir algumas emissões do Tubo de Ensaio.
Definitivamente, a ordem simbólica está a mudar. E o (nosso) humor também.
- E se eu te comesse agora?
Perante a anuência do seu interlocutor, os dois (Nogueira e Unas) parodiam um acto de sodomia ao vivo. No fim, Rui Unas remata do seguinte modo:
- Obrigado por teres sido meigo.
Longe vai O dito espirituoso nas suas relações com o inconsciente (como escrevia Freud há pouco mais de um século). O humor é, tradicionalmente, uma curva, um passar ao lado: o caminho mais longo entre dois pontos. Tal como defendiam os antigos "cínicos" - mas sem a convicção destes - o humor que se faz hoje em dia é cada vez mais objectiva e abjectivamente directo: "o caminho mais curto".
Há algum tempo atrás, alguém perguntava (creio que ao Bruno Nogueira); há limites para o humor? Ao que este respondeu: Não!
Nem sequer o "bom gosto" é já um limite para o humor; basta ouvir algumas emissões do Tubo de Ensaio.
Definitivamente, a ordem simbólica está a mudar. E o (nosso) humor também.
14.10.10
Amizade líquida
Costuma dizer-se que uma imagem diz mais do que mil palavras. Talvez por isso, à deflação da palavra tem correspondido uma crescente inflação de imagens; veja-se, por exemplo, a quantidade extraordinária de fotografias, de cenas da vida íntima ou de filmes caseiros que povoam o facebook ou o Youtube...
Há palavras, ainda assim, que dizem mais acerca do estado do mundo do que qualquer imagem consegue mostrar. É o caso, por exemplo, do termo "desamigar" (unfriend). Aristóteles, que dedicou inúmeras páginas ao tema da amizade, teria agora - se fosse vivo - de reescrever a sua Ética a Nicómaco para que nela coubesse a crescente (des)amizade que assola o mundo...virtual.
Como diria o poeta, o mundo pula e avança.
Se tudo derrete - e não apenas o gelo dos polos - por que não haveria a amizade também de derreter?
Há palavras, ainda assim, que dizem mais acerca do estado do mundo do que qualquer imagem consegue mostrar. É o caso, por exemplo, do termo "desamigar" (unfriend). Aristóteles, que dedicou inúmeras páginas ao tema da amizade, teria agora - se fosse vivo - de reescrever a sua Ética a Nicómaco para que nela coubesse a crescente (des)amizade que assola o mundo...virtual.
Como diria o poeta, o mundo pula e avança.
Se tudo derrete - e não apenas o gelo dos polos - por que não haveria a amizade também de derreter?
3.10.10
Filme do Desassossego
Acabei de regressar, há algum tempo, do CCB. O auditório foi pequeno - literalmente - para tantas pessoas que não queriam perder o último filme de João Botelho, baseado na obra do semi-heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares. Não houve Coca-Cola nem Pipocas (como pedia o realizador), mas um silêncio atento do princípio ao fim.
Confesso que eu amo o livro de Bernardo Soares desde que o li pela primeira vez, já lá vão mais de vinte anos. Ao longo das inúmeras releituras que fiz deste livro, ele sempre teve a capacidade de me surpreender. Por isso, ia com poucas expectativas; foi o que disse, aliás, a quem me acompanhava.
Mas talvez não fosse bem assim - e - como se diz na gíria psicanalítica - tudo não passasse de uma "denegação", isto é, um modo de afirmar, negando. Na verdade, eu tinha muitas expectativas, demasiadas...
Por isso, talvez por isso, não partilho das várias opiniões (unânimes) expressas nos inúmeras comentários que tive ocasião de ouvir e ler entretanto sobre o filme de João Botelho: magnífico, esplendoroso, sublime...
Há sequências magistrais, sem dúvida; fragmentos que valem por si mesmos; desempenhos irrepreensíveis; mas há também inúmeros trechos desenquadrados, inconsequentes e, sobretudo, assentes num mero virtuosismo (exibicionismo?) estético. É um filme demasiado saturado de palavras (por opção deliberada do realizador) e, igualmente, de imagens; mas faltam, para mim, aquelas "intercalações de luz e sombra" (não sei como dizê-lo melhor senão recorrendo a esta frase de Bernardo Soares) que fazem tinir em cada palavra a campainha do silêncio e em cada imagem o brilho do que fica na sombra.
O livro do desassossego está repleto de vazios, cheio de pequenos nadas, é tecido de intervalos, de meios tons; eu esperava, talvez, que este filme, mais do que reproduzir muitas falas do livro, pondo-as na boca, ora de um, ora de outro personagem, quase sempre do próprio Bernardo Soares (Cláudio da Silva), pudesse "mostrar" um pouco desses intervalos e meios tons. Mostrar o que a palavra roça, contorna, mas não diz.
Talvez eu tivesse demasiadas (infundadas?) expectativas. Admito.
Confesso que eu amo o livro de Bernardo Soares desde que o li pela primeira vez, já lá vão mais de vinte anos. Ao longo das inúmeras releituras que fiz deste livro, ele sempre teve a capacidade de me surpreender. Por isso, ia com poucas expectativas; foi o que disse, aliás, a quem me acompanhava.
Mas talvez não fosse bem assim - e - como se diz na gíria psicanalítica - tudo não passasse de uma "denegação", isto é, um modo de afirmar, negando. Na verdade, eu tinha muitas expectativas, demasiadas...
Por isso, talvez por isso, não partilho das várias opiniões (unânimes) expressas nos inúmeras comentários que tive ocasião de ouvir e ler entretanto sobre o filme de João Botelho: magnífico, esplendoroso, sublime...
Há sequências magistrais, sem dúvida; fragmentos que valem por si mesmos; desempenhos irrepreensíveis; mas há também inúmeros trechos desenquadrados, inconsequentes e, sobretudo, assentes num mero virtuosismo (exibicionismo?) estético. É um filme demasiado saturado de palavras (por opção deliberada do realizador) e, igualmente, de imagens; mas faltam, para mim, aquelas "intercalações de luz e sombra" (não sei como dizê-lo melhor senão recorrendo a esta frase de Bernardo Soares) que fazem tinir em cada palavra a campainha do silêncio e em cada imagem o brilho do que fica na sombra.
O livro do desassossego está repleto de vazios, cheio de pequenos nadas, é tecido de intervalos, de meios tons; eu esperava, talvez, que este filme, mais do que reproduzir muitas falas do livro, pondo-as na boca, ora de um, ora de outro personagem, quase sempre do próprio Bernardo Soares (Cláudio da Silva), pudesse "mostrar" um pouco desses intervalos e meios tons. Mostrar o que a palavra roça, contorna, mas não diz.
Talvez eu tivesse demasiadas (infundadas?) expectativas. Admito.
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