15.7.07

O que dizem elas sobre "isso"?


Na revista "Sábado" da última semana, vinha um artigo sobre "mulheres que têm sexo com estranhos". O artigo fazia referência a estudos que mostram que 50% das mulheres portuguesas já tiveram relações de uma só noite, e trazia o testemunho de cinco delas. Apesar do número impressionante (50%) - não sei, aliás, se António Barreto terá contemplado este aspecto no seu "Portugal, Um Retrato Social", pois não tive oportunidade de ver todos os episódios -, o que me deixou a pensar foi sobretudo a ideia do "testemunho".

Que cinco mulheres tenham aceite testemunhar acerca das suas aventuras sexuais, nem sequer é muito impressionante. Acontece, no entanto, que o relato feito por mulheres de tais experiências é não só cada vez mais frequente, como atinge todos os domínios (da literatura à Internet), ganhando uma progressiva expressão num espaço tradicionalmente masculino. Isto não deixa de romper com algumas ideias-feitas e levantar certas questões:

Uma das ideias é que as mulheres anseiam por amor, enquanto os homens só ligam ao sexo. O que muitos destes relatos (reais ou fictícios) parecem mostrar é que, no mínimo, isto é uma ideia-feita.


Por outro lado, a revolução "feminista" parece ter desembocado numa verdade paradoxal: tornou, finalmente, como pretendia, os homens e as mulheres "iguais".

Não parece, além disso, que estejamos verdadeiramente perante uma nova modalidade de "gozo feminino", mas perante o triunfo generalizado do gozo "fálico", no que este encarna a "sexualidade". Prova disso, é o discurso "sexológico", cada vez mais difundido, de que as mulheres não só têm "direito" ao orgasmo, como têm igualmente "obrigação" de o ter, ou de os ter, custe o que custar.

É um pouco como a felicidade: de desejo, tornou-se obrigação. Claro quer isto gera novas fontes de angústia e mal-estar, visto que a "performance" sexual está constantemente a ser avaliada.

No entanto, se eu comecei por falar da importância do "testemunho", do "relato", é porque há aqui, porventura, algo mais para além do gozo "sexual". Com efeito, quer sejam escritos ou mostrados (por exemplo, através da Internet, em sítios e blogues diversos), a questão é sempre a mesma: não se trata puramente de "gozar" (no real), mas de "dar a ver", de "fazer ver" (no imaginário)
a um outro qualquer (reduzido a um puro olhar anónimo: quer seja do leitor ou do espectador) esse gozo que acaba por ser, fundamentalmente, "escópico".

É, ainda e smpre, o espectáculo do "olhar".

1 comentário:

Alexandra disse...

Tal como costuma cantar a "minha amiga" Cindy Lauper: "After the working day is done, Girls just want to have fun!"
;-)