12.6.07

A felicidade paradoxal


Segundo o conhecido filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky, a sociedade entrou numa nova era (de hiperconsumo*) e num novo tempo (hipermoderno**). Uma das consequências desta "evolução" traduz-se no que ele chama a "felicidade paradoxal". Esta reside, basicamente, no seguinte: nunca foi tão grande e tão alargada a exaltação da melhoria contínua das condições de vida, ao mesmo tempo que o indivíduo contemporâneo jamais atingiu um tal grau de "desamparo".

É como se a "exigência de felicidade" (a todo o preço) acabasse por se revirar, paradoxalmente, no seu avesso: a in-felicidade. O imperativo que nos diz, a cada momento, "sê feliz", não nos deixa gozar em paz a felicidade, visto que transforma rapidamente toda a possível "felicidade" em infelicidade. Num tempo em que parece ser pecado ser infeliz - tal é a religião sem Deus que nos domina - somos todos infelizes.

Aquilo que aconteceu - é a minha proposta - foi a passagem de um tempo em que a felicidade era um "desejo" (toda a gente desejava ser feliz) para um tempo em que a felicidade passou a ser uma ordem , um imperativo: "deves" ser feliz!

A felicidade tornou-se, parafraseando Lacan, um "imperativo de gozo". Uma das consequências é o acréscimo da depressão e dos estados depressivos.


* Cf. Le bonheur paradoxal, Éditions Gallimard, 2006

**Cf. Les temps hypermodernes, Éditions Grasset & Fasquelle, 2004

1 comentário:

cacos meus botoes disse...

Atrevo-me a enviar um texto meu, dedicado ao meu analista, em discordancia de q só existe "felicidade paradoxal".



Porque a cura vislumbra a imortalidade
christiana fausto

Respondendo à sua pergunta, Gustavo, pensei em escrever algo mais para o meu próprio entendimento.

Compreendendo o caráter devastador da histeria, capaz de deixar um sujeito tão isolado no seu próprio desejo a ponto de fazê-lo falar uma língua que apenas ele entende, o até então chamado "discurso psicótico"; de levá-lo à morte com a produção de um câncer, para ficar nos dois exemplos mais pungentes na busca de um gozo que é matador, Lacan já o dizia, a cura equivaleria a um acordo com o gozo, um acordo civilizado onde os desejos seriam realizados pela sublimação bem-sucedida. No lugar do desejo sexual, matador, a Arte, em toda a sua extensão, não somente a escrita, como Lacan o dizia, mas qualquer arte que faça o sujeito gozar verdadeiramente, sem o risco de o mais-gozar levá-lo à morte, como nas overdoses dos adictos, mas o desejo de mais-produzir, mais arte, incansável produção que não acaba nunca, seja na escrita, seja nas outras formas de arte tão radicais quanto. No lugar do desejo (sexual), a Arte que transcende, que irradia vida, que traz gozo amplamente satisfatório e não mortal.

Compreendendo a histeria como a rainha das neuroses, tanto que Lacan exigia a histerização do discurso para o início efetivo de uma análise, e sabendo dos seus efeitos devastadores inclusive no corpo, o sintoma que mata, curar-se da histeria, coisa até então não realizada por sujeito nenhum, apesar de Freud ter começado e Lacan ter chegado muito perto, poderia, em última instância, equivaler a curar-se da morte. Ambos nos deixaram ótimas pistas para levar esse projeto adiante, Lacan já o diz em "Na direção da cura". Ele a pressentia, ele sabia que "direção" leva a algum lugar, mas sabia que ainda não tinha chegado lá, não entendia esse buraco negro que é a feminilidade, não poderia, por mais genial que fosse, pelo simpes fato de ele não ser uma mulher. Tanto ele pressentia que havia uma ligação entre a cura e a imortalidade que disse, num determinado seminário, num tom de chiste muito revelador: "Se acontecer de eu morrer um dia"... Isso foi gravado, publicado, ouvido pelos frequentadores presentes e talvez mal entendido como mais um enigma lacaniano, mas isso era mais um matema lógico, não era um delírio de sujeito barrado. Sujeito sem barra, livre da castração, do recalque, dos sintomas, sujeito curado, esse era o seu ponto de chegada almejado "na direção". O ponto de chegada era a cura, efetivamente. Ele próprio propôs não ficar esbarrado no "rochedo da castração", aquele ponto irredutível da análise a que Freud chegou, de onde não se avança, onde se esbarra, literalmente. Propôs, como gênio que era, atravessar esse rochedo, fazer a travessia, e sabia que essa travessia tinha a ver com o objeto a, objeto do desejo. Poder não ficar pulando de objeto em objeto, mas colocar-se no lugar desse objeto é o que nos indica o discurso do analista, cura plena, que nem ele chegou, coitado.


Com a Clínica do Real, sua produção mais madura (o real indizível, da angústia de morte, do corpo falível, lugar de doenças as mais várias que vêm no lugar do desejo sexual sempre fracassado dos seres humanos, já que a relação sexual não existe, não satisfaz, deixa sempre um vazio que não se preenche nunca, Lacan chegou muito perto da compreensão da travessia. Não teve tempo de fazê-la, pois o Real do seu corpo estava já adoecido, cerebralmente adoecido, é bom lembrar, além de ser homem e desejar ser uma mulher "honoris causa". Honoris causa não vale, Lacan, tem que se ser uma mulher de verdade, marcada pelo ferro da castração no real do corpo para fazer essa travessia. Faltou isso, Lacan, mas você foi muito generoso em nos indicar o caminho.

Seus seguidores, os de Lacan, matam-se até hoje na decifração desse discurso tão enigmático. Marcel Czermak, coitado, fez um calhamaço de livro chamado "o objeto a". Bobagem, rapazes, bobagem...


Apenas suportando a prática clínica analítica lacaniana, contando e recontando sua história inúmeras vezes, sem nunca cessar de se repetir, porque não é uma repetição histérica, é uma repetição dialética, onde nunca se diz uma coisa do mesmo jeito, é que se chega a essa decifração. Esse é um momento de alumbramento, indescritível, apenas sentido por quem chega a tal ponto.

Não quero dizer que é tudo oba oba e fácil de se conseguir.
Ao contrário, é tudo regado a sangue, suor e lágrimas, muitas lágrimas, tanto de alegria como de tristeza pelo enfrentamento das perdas que isto implica, pelo desperdício de vida que se impõe a quem se propõe tal empreitada. Mas posso dizer que é um caminho sem volta. Não tem choro nem vela que o dissipem. É uma produção, como se diz no jargão analítico. E, como se diz nas ruas de Salvador, "aceito vale, aceito passe!".

Salvador, 22 de maio de 2007




Abaixo, um trecho q achei sobre Na direção da cura, depois de ter escrito o texto acima e que foi muito esclarecedor para mim.
Os seis pontos mencionados por Lacan são os seguintes: "1. Que a fala tem aqui todos os poderes, os poderes especiais do tratamento; 2. Que estamos muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso coerente, mas que o deixamos livre para se experimentar nisso; 3. Que essa liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar; 4. Que a demanda é propriamente aquilo que se coloca entre parênteses na análise, estando excluída a hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma; 5. Que, não sendo colocado nenhum obstáculo à declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado; 6. Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode ater-se aqui a nada além da incompatibilidade do desejo com a fala (p. 647)."




texto meu: Dependendo do quanto eu possa tolerar em experimentar essa liberdade, é para lá (para o discurso coerente) que eu sou dirigida e até canalizada. Resistência a declarar meu desejo? Nenhuma, onde era eu, advirá o "isso".