31.1.05

Traumatizados da língua

"A única forma, parece-me, de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença".

A frase é do escritor António Lobo Antunes. Segundo Livro de Crónicas.

Há quem pense que a escrita é uma saúde; aqui afirma-se que ela é uma doença. Uma doença que não cessa de (se) escrever, de se passar por contágio

Paul Celan, um outro escritor e poeta, tinha da escrita uma ideia semelhante. Este filho de judeus de língua alemã, o mesmo que fizera Adorno mudar a opinião de que era bárbaro escrever um poema depois de Auschwitz, não só não se curou por meio da escrita (acabando por suicidar-se no Sena em Abril de 1970) como teve com esta uma relação, por assim dizer, doentia, concentracionária.

A língua alemã é para ele o lugar de um mau-encontro: instrumento ao mesmo tempo da vítima e do carrasco. Com efeito, os seus pais morreram num campo de concentração nazi e ele próprio passou algum tempo num deles. A morte é um um mestre que veio da alemanha (diz-se num poema), que fala alemão.

Os seus poemas são cada vez mais herméticos, fragmentários, desconjuntados, ilegíveis. A língua torna-se cada vez mais branca, silenciosa. Como se a nomeação do horror se tornasse, ela mesma, impossível de suportar. Como se houvessse o desejo inconfessado de acabar com a língua alemã, a língua dos assassinos. Na impossibilidade de acabar com a língua, o poeta acaba com o ser.

Mais recentemente, um outro poeta, Antonio Mega Ferreira, numa bela Caligrafia dos Prazeres, fala-nos de um sonho angustiante que tem na língua o seu protagonista, ainda que segundo uma outra perspectiva.

Conta ele que certo dia, em sonho, ao realizar uma complexa negociação em castelhano, língua ao mesmo tempo estranha e familiar, as coisas não lhe estavam a sair nada bem. Acorda, por instinto de defesa, e é assaltado por uma ideia angustiante: e se por uma qualquer razão não pudesse mais sair daquele cárcere linguístico para regressar à casa da língua materna?

A língua do escritor (como a língua de todos nós) é, simultaneamente, traumática e acolhedora, estranha e familiar, trama e trauma. Nascemos numa língua que não escolhemos; somos primeiro habitados por ela, antes de a tornarmos habitável.

Casa do ser, casa do não ser: lalangue.

A língua faz trama de nós.

Trama-nos.

Acolhe-nos.

Rejeita-nos.





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