8.10.07

Ainda a (des)propósito do último filme de David. Lynch

O que este filme nos dá a ver parece inteiramente descabido, sem lógica ou sentido algum.

Se há, apesar de tudo, uma lógica do sentido, com diria Deleuze, ela é a da própria vida ( e não apenas do sonho ou do cinema).

Com efeito, pensamos que a vida caminha linearmente, em linha recta por assim dizer, em que os tempos sucedem uns aos outros, numa acumulação progressiva, e os espaços se harmonizam por contiguidade. Segundo esta lógica, vamos ganhando cada vez mais (experiência, maturidade, juízo...) e aproximando-nos cada vez mais (da verdade, do belo ou do bom).

Porém, tudo o que ganhamos de um lado, perdemos do outro. A vida anda às voltas, confundindo o tempo e o espaço no mesmo vórtice. Quando pensamos ter aprendido a lição, o dia do exame já passou.

Parafraseando Freud (O Humor), a vida é apenas "um bom tema para uma piada". Mesmo se houve quem não tivesse achado muita piada ao filme de Lynch... ou haja quem não ache grande piada ao próprio Freud.

5.10.07

Fados

"Fados", de Carlos Saura, a que hoje tive oportunidade assistir, é um filme que tem várias particularidades. Para começar, o título: é uma aposta na pluralidade impura dos "fados" em vez de na pureza do "fado", como pretenderiam alguns. Reside aqui a sua grandeza, mas também alguma da sua fragilidade, visto que não contempla, por exemplo, o fado de Coimbra.

Além do título, também o realizador é particular: um espanhol que decide dirigir um filme sobre algo genuinamente português. Isto não deixa de colocar algumas questões, por exemplo a de saber por que tem de ser um estrangeiro a permitir-nos ver, com o seu olhar, algo que é nosso, como se houvesse necessidade de um ponto de fuga exterior, situado no Outro, para que aquilo que somos venha à luz do dia ou, como é neste caso, à luz do cinema.

Terceira particularidade: aos olhos de Carlos Saura, os fados não são vozes descarnadas, mas espaços em que a voz, o som das guitarras (ou outros instrumentos) se casam harmoniosamente com a dança. Neste aspecto, ele recupera - diz quem sabe - uma das características originais do "fado".

Quarta particularidade: em vez de concentrar-se exclusivamente no "fado" tradicional cantado por portugueses e em português de Portugal, o filme de Carlos Saura aposta corajosa (e em meu entender conseguidamente) na lusofonia. É saboroso escutar os sons do fado em várias sonoridades, estilos (que vão desde a morna ao rap...) e mesmo sotaques. É impossível, hoje, não reparar como o fado contaminou outras formas musicais (no grande espaço da lusofonia) e foi igualmente contaminado por algumas delas. Carlos Saura percebeu-o bem.

Quinta particularidade: não há protagonistas neste filme (nem mesmo os fadistas mais requisitados, como Carlos do Carmo, Mariza ou Camané podem ser vistos como tal) nem história ou narrativa. Os únicos protagonistas são os "fados", isto é, a própria música; o resto são breves notas ou apontamentos.

Pode discutir-se o que falta (não só o fado de Coimbra, como inúmeros fadistas consagrados) ou o que está descolorido neste filme(como o caso de Amália Rodrigues), mas o que é certo é que, em si mesmo, ele tem uma consistência interna, uma beleza formal assinalável e uma selecção musical (ainda que discutível) que dá gosto ouvir.

Ao decidir chamar-lhe "fados", Carlos Saura, mais do que apenas fazer um filme, abriu uma porta. Espera-se que outros fados possam irromper por essa porta.

1.10.07

Descascando a cebola da culpa


A ideia não é nova: gozamos mal porque sentimos culpa. Daí que haja uma tendência, cada vez mais acentuada, de desculpabilização. Não se trata exactamente de pedir desculpa (pois quem pede desculpa ainda se sente culpado) ou de expiá-la, mas de apagar, rasurar, fazer desaparecer a culpa. No limite, o sonho é poder agir sem culpa. Fazem-se terapias para dormir melhor e, de preferência, sem culpa.

Porém, não é certo que a culpa seja um obstáculo ao gozo, antes uma das suas formas mais sofisticadas. Talvez seja este um dos "paradoxos do cristianismo", como diria Chesterton.
Em vez de ter criado um obstáculo, o cristianismo teria inventado um novo modo de gozar (Cf. ZizeK, A Marioneta e o Anão) para além do tédio da existência pagã.

Por outro lado, há uma diferença entre apagar a culpa (como se pretende cada vez mais) e assumi-la: neste caso, há um sujeito que responde (mesmo que inconscientemente) por um acto. E como o inconsciente não conhece o tempo (cronológico), há coisas que insistem, na nossa vida, até serem integralmente, subjectivamente assumidas.

Que o diga Günter Grass, o aclamado escritor alemão , que decidiu quebrar o silêncio (sobre a sua participação, no final da segunda guerra mundial, nas Waffen-SS, uma força militar especial do Partido Nazi, condenada nos tribunais de Nuremberga) após sessenta anos (Cf. Descascando a Cebola - Autobiografia 1939-1959).

Não é a culpa uma das provas de que somos humanos?

25.9.07

Um nada que é tudo


O meu filho tem um gosto aparentemente bizarro: colecciona pedras. Toda a pedrinha que encontra no chão é objecto do seu interesse.

Mas será um gosto assim tão bizarro?

A minha tese é que ele já apreendeu o "o segredo"de toda a arte pós-Duchamp: qualquer coisa serve - um urinol, uma pá, uma roda, uma pedra...não interessa.

Qualquer coisa serve para ocupar provisoriamente o vazio da Coisa: essa coisa que perdemos quando começamos a falar.

Aliás, este gosto, aparentemente infantil, é afinal o que move grande parte das realizações humanas. Caso contrário, não se perceberia o entusiasmo, a paixão com que a tecnociência contemporânea não cessa de produzir, num ritmo alucinante, novos objectos. Já não se chamam pedras, mas telemóveis, computadores, ipods... e um sem número de outras nomes.

Dei por mim a pensar nestas coisas quando assistia, ontem, ao programa "Prós e Contras" (RTP1) e ao entusiasmo "infantil" com que os participantes falavam do admirável mundo novo da tecnologia.

Pedras, pedras no caminho...

24.9.07

Arte da prudência

Descartes acreditava ser necessário um método para bem conduzir o pensamento e a vida. O que fazer, porém, quando o barco da vida perdeu o Norte e navega agora num mar de incerteza e contingência, sem um Grande Outro (seja Deus ou a Razão) que lhe sirva guia?

Talvez a resposta seja aquilo a que Baltasar Gracián chamava a "Arte da Prudência". Ser "prudente" significa, neste caso, saber-fazer com a incerteza e a contingência. "Saber-fazer" não é a mesma coisa que "saber". Contrariamente à fantasia hegeliana de um "saber absoluto", há algo que é impossível de saber; não porque o fechemos à chave ou lhe dificultemos o acesso (é a nossa fantasia), mas porque há, estruturalmente, um saber que não se sabe. Que ninguém sabe.

Trata-se, então, de saber-fazer com o não saber. E como as razões se acabam depressa, como diria Wittgenstein, temos de agir sem elas.

22.9.07

Tropeçar na felicidade

Vivemos um tempo extremamente paradoxal: ao mesmo tempo que se fala, como nunca, na "sociedade de consumo" (segundo a expressão, já consagrada, de Baudrillard) ou "hiperconsumo" (Lipovetsky), não paramos de assistir a fenómenos em que parece haver, cada vez mais, um medo ou um receio de consumir. Abundam os produtos "light: a cerveja sem álcool, o café sem cafeína...e por aí adiante. Produtos leves que nos mantêm leves, cada vez mais leves.

Aliás, este fenómeno é geral: não diz apenas respeito à comida, para o estômago, mas também ao alimento para o espírito. Queremos livros, por exemplo, que não cansem demasiado, que sejam fáceis de digerir. Devem poder ler-se de um só fôlego, sem demasiadas pausas para respirar, e sobretudo não provocar insónias.

Nesta cultura "light", uma das ideias mais extraordinárias que frutificou e se expandiu, como uma praga, foi a de que a felicidade é algo que está aí ao abrir da mão. Mais : só não é feliz quem não quer. Mais ainda: é obrigatório ser feliz. Da mesma forma que podemos beber um café sem cafeína ou uma cerveja sem álcool, podemos ser felizes se quisermos.

Um dos preços a pagar por esta ideia é que andamos todos cada vez mais deprimidos, mais infelizes. A prova é o consumo, sempre crescente, de medicamentos. Se eu não sou verdadeiramente feliz, devo ter um problema. Se às vezes me sinto profundamente triste é porque ainda estou pesado e devo, quanto antes, libertar-me desse peso. Se o peso se mantém, apesar de tudo, é porque...não fiz a "dieta" indicada.

Trata-se, no fundo, de uma mudança assinalável em relação a toda a tradição do pensamento ocidental. Com efeito, se para Aristóteles, por exemplo, a felicidade era um desejo de todo o homem, para nós ela tornou-se uma obrigação. A felicidade tornou-se numa espécie de "escolaridade obrigatória": tal como somos obrigados a frequentar a escola, durante x anos, também somos obrigados a a ser felizes.

O problema é que a felicidade é um pouco como Deus: estás em toda a parte, diz-se, mas nunca o vemos em parte alguma. Como diz Daniel Gilbert, o autor de Tropeçar na Felicidade (Stumbling on Hapiness), "quando aquilo que tínhamos projectado finalmente se realiza, o nosso bom humor não dura tanto como esperávamos. E, apesar da nossa obsessão com a felicidade, nunca seremos tão felizes como a nossa imaginação nos promete" (Estrela Polar, 2007).

Segundo o autor, tal deve-se ao facto, cientificamente demonstrado, que a nossa imaginação sofre uma espécie de "ilusão de óptica" quando projecta o futuro.

Ora, para uma "ilusão de óptica", não seria melhor consultar o oftalmologista em vez de mergulhar, de cabeça, na literatura "light" da auto-ajuda e afins?

É uma proposta "light"...para um tempo "light".

16.9.07

A novela do real

O real é traumático, impossível de suportar. Quando uma criança "desaparece" do mundo (por morte, rapto ou outra razão qualquer) somos confrontados, de um modo ou de outro, com esse real. Nada é mais difícil de suportar do que este súbito e brutal congelamento do futuro que a vida de uma criança representa.

Acontece que hoje, graças aos media, este real traumático acaba por ser banalizado. A força da repetição enfraquece progressivamente os sentimentos. O que havia de "real", impossível, transforma-se em "realidade" fabricada, insignificante, inofensiva. Ouvimos e vemos a novela do real como quem bebe um café...descafeinado.

Tal como em outras novelas, também nesta o amor cede rapidamente lugar ao ódio. E há, sobretudo, uma velha equação, de raiz grega, que continua a funcionar: a equivalência entre o belo e o bom. Com efeito, se o caso da menina "desaparecida" no Algarve levou a uma tal "identificação" por parte das pessoas relativamente aos pais da criança (contrariamente ao que acontecera em milhares e milhares de outros casos) é porque se tratava de "gente bonita", como se diz. E gente bonita não faz coisas feias. Até o santo padre continua afectado por esta equação de raiz grega entre o bom e o belo, a ética e a estética.

A função do belo (que as televisões mediatizam até à exaustão) é poupar-nos o confronto com o impossível de suportar, com o real. Porém, tal como pode haver beleza no mal (como mostrou Baudelaire), também existe "maldade" na beleza.

A gente bonita também é capaz de coisas feias.

10.9.07

O que fazer com o nariz


Há um livro fantástico de Luigi Pirandello, Um, Ninguém, Cem Mil, cuja personagem principal, Vitangelo Moscarda, acaba progressivamente por enlouquecer com base num pormenor aparentemente insignificante: graças a um reparo da sua mulher, descobre, espantado, que o seu nariz tem uma ligeira inclinação para a direita.

Esta simples constatação torna-se num espécie de bola de neve que vai arrastando, à medida que rebola, todo o tipo de certezas subjectivas e desencadeando um autêntica revolução interior no protagonista. Toda a percepção de si mesmo e dos outros fica irremediavelmente abalada.

Claro que isto é um romance (mesmo se a vida está lá toda) e a moral da história é que a criação implica uma certa forma de "loucura" ou histerização do sujeito, no sentido em que as certezas e os baluartes que o protegem quotidianamente são de alguma forma abalados.

Dei por mim a pensar neste livro de Pirandello (tal é a lógica da associação de ideias) quando lia um artigo na última edição da revista Sábado sobre "as loucuras no mundo das plásticas" (cf. nº 175 - 6 a 12 de Setembro de 2007). Pensei: hoje, em vez de meditar ou filosofar sobre o ligeira inclinação do nariz para a direita, Vitangelo Moscarda teria simplesmente pedido uma plástica para corrigir a imperfeição.

Aliás, a ideia habitual que nós temos da cirurgia plástica é simplesmente essa: corrigir as imperfeições. Mesmo se, no limite, um tal desejo se revele impossível de satisfazer, como mostra o caso de alguém que já fez 16 cirurgias e pretende continuar (p. 42-43). Mesmo assim, isso ainda parece normal: trata-se de corrigir, por meio da arte, certas imperfeições da natureza. Ou perfazer o trabalho que a natureza começou. Num certo sentido, como diria Aristóteles, trata-se ainda, de alguma forma, de imitar a perfeição que a natureza poderia ter produzido se levasse a bom porto o seu trabalho.

Mas o que dizer de alguém que pede, não um aperfeiçoamento ou uma correcção desta ou daquela parte do corpo, mas antes um "desvio lateral do nariz" (p. 43), o mesmo que custara a sanidade mental à personagem de Pirandello?

Um e outro caso demonstram, embora por caminhos diametralmente opostos, que o corpo do sujeito que fala e que é falado (para o qual Lacan inventou o termo de parlêtre) é irremediavelmente um corpo pervertido, desnaturado, incómodo.

7.9.07

Aqui há rato...


Tem-se falado ultimamente de ratos a propósito da praga que assola a vizinha Espanha e que, segundo alguns, pode chegar a Portugal. Seria uma variação interessante do velho ditado: de Espanha, nem bons ventos, nem bons...ratos!

Veio mesmo a calhar o filme "Ratatouille", actualmente em exibição nas salas de cinema. Não que o significado do termo tenha algo a ver com ratos, pois o ratatouille é um prato rústico, típico da região de Provence. Pouco importa: o que conta, independentemente do significado, é que quando ouvimos o significante, em português, não conseguimos deixar de pensar em ratos. E com razão, pois os protagonistas do filme são, na verdade, ratos, em especial um que se chama Rémy. Eu sei disso porque fui "obrigado" a ver o filme duas vezes por causa da paixão que o meu filho, de cinco anos, lhe consagrou. Aliás, por causa disso (a função paterna?) tenho visto inúmeros filmes para "crianças", mas raramente com tanto prazer como este último.

O argumento poderia resumir-se da seguinte maneira: trata-se do encontro, improvável, entre duas coisas que não podem estar mais afastadas entre si: ratos e cozinha. Seguindo a máxima do malogrado chef Auguste Gusteau, segundo a qual "todos podem cozinhar" (até um rato), Remy, um rato "atópico", isto é, desenquadrado do seu meio natural, torna-se num verdadeiro criador da arte culinária. De tal forma que até o maior crítico do meio, Anton Ego, fica rendido.

A cena é comovente: quando o crítico, reticente, após ter pedido algo que o surpreenda, prova o "ratatouille" feito pelo pequeno Remy (embora não sabendo que está a comer comida feita por um rato), é tomado por uma espécie de vertigem do espaço-tempo que o leva de regresso à infância. O que vemos, então, é a súmula de todo o filme e resume-se numa frase: não há cozinhados como os da mamã.

Com efeito, o que vemos nesse flash retrospectivo é o pequeno Anton Ego a ser alimentado pela sua mamã, saboreando, com todo o prazer, o seu (primeiro?) "ratatouille". Que possamos deliciar-nos, também nós (e não só as crianças...) com esse espectáculo de "imagens", é a prova de que há, para além da mera necessidade, uma outra satisfação que é igualmente alimentada.

4.9.07

O "segredo" do segredo


Após ler imensos disparates sobre o último best seller a nível mundial, "O segredo", dei comigo a perguntar: estaremos nós tão desesperados que até a merda nos parece luzidia como o ouro?

Deixando de lado o oportunismo da autora, Rhonda Byrne, que já encheu os cofres à custa do desespero humano, creio que eu mesmo descobri o "segredo" do segredo. Mesmo se não há sentido do sentido ou verdade da verdade (pois tanto o sentido como a verdade deixam sempre um resto), há "segredo" do segredo. E qual é então, o segredo do segredo?

O segredo do segredo é a abolição do real. O real é o que oferece resistência ao pensamento. Aquilo a que o psicanalista francês Jacques Lacan (cujos escritos são também da ordem do real porque oferecem resistência ao pensamento) chamava: forclusion. Na verdade, ele usava este termo para falar do mecanismo envolvido em certos distúrbios psiquiátricos, enquanto abolição de um significante no simbólico. No caso presente, trata-se de uma abolição do próprio real, isto é, do que oferece resistência ao pensamento.

Com efeito, o que diz o "segredo"? Que basta acreditar e pensar positivo.

1.9.07

Second Life

Ao ler, algures, um artigo sobre o aumento exponencial do número de utilizadores da chamada "Second life", dei por mim a pensar no seguinte: o que é mais espantoso não é que as pessoas, de uma forma geral, queiram ter uma "segunda vida" (pois, como é costume dizer, a que se tem deixa sempre a desejar), mas antes que essa "segunda vida" seja, afinal, tão parecida com a "primeira".

Aliás, esta parece ser mesmo a filosofia da coisa: que tudo pareça tão "real", isto é, tão parecido com a "realidade" quotidiana, quanto possível.

Isto, sim, dá que pensar!