"Agora, para os jovens, Deus não existe em absoluto. A religião mundial é actualmente o futebol. É a única coisa capaz de congregar milhões de pessoas. Há, em Newcastle, uma expressão Maravilhosa: "Football is not a question of life or death, it's damn more important.". Isto é maravilhoso, absolutamente maravilhoso. Viver-se para o futebol, morre-se para o futebol. É a única religião do mundo." (George Steiner, Entrevista conduzida por Beata Cieszynska e José Eduardo Franco, Revista Ler, Março 2001, p. 35).
Não sei se estou inteiramente de acordo com a afirmação, até porque ainda se vive e morre demasiado em nome de Deus por esse mundo fora; de qualquer modo, se a única (a verdadeira?) religião é actualmente o futebol, estou mesmo condenado...
Há uma cena inolvidável no filme "O Segredo dos seus olhos" que nos faz sentir, por momentos, esta coisa maior que a vida e a morte que apaixona tantos por esse mundo fora. Houve um tempo em que o cinema também era uma religião...
31.3.11
24.3.11
Quem tem razão?
Não houve aqui um tremor de terra, mas muita coisa caiu. Caiu o governo, caíram máscaras - muitas haverão, porventura, ainda de cair - e choveram sobretudo acusações, de parte a parte: de quem é a culpa, quem são os responsáveis, quem tem afinal razão?
A neurobiologia (ver Damásio) tem insistido na importância e no papel da emoção para o (bom) funcionamento da razão. Contrariamente a grande parte da tradição filosófica (Descartes, Kant, entre muitos outros), apostada em domar, domesticar, submeter a emoção à razão, a investigação provinda da neurobiologia tem insistido sobretudo, ou igualmente, na disfunção, inoperância ou ineficácia da razão sem o contributo, precioso, da emoção.
Tomando o exemplo da política portuguesa nos últimos anos, é fácil concluir que a emoção não tem faltado; o que tem faltado, em grande medida, é o contributo da razão.
Não há dúvida: a nossa democracia parece ter incorporado bem a lição da neurobiologia, tornando-se bastante "emotiva".
E quando a emoção se serve ainda de toda a panóplia de figuras de retórica, o seu efeito "teatral" é ainda mais eficaz.
Como entender, então, uma frase do género: "acabou o teatro!" Como efeito, ainda, do excesso de emoção; como entrada da razão em cena (na cena política); ou apenas como mais uma frase dita por um actor que acaba de entrar em palco?
Nesse caso, o teatro vai continuar. Com as consequências (bem menos teatrais) que já conhecemos.
A ver vamos.
A neurobiologia (ver Damásio) tem insistido na importância e no papel da emoção para o (bom) funcionamento da razão. Contrariamente a grande parte da tradição filosófica (Descartes, Kant, entre muitos outros), apostada em domar, domesticar, submeter a emoção à razão, a investigação provinda da neurobiologia tem insistido sobretudo, ou igualmente, na disfunção, inoperância ou ineficácia da razão sem o contributo, precioso, da emoção.
Tomando o exemplo da política portuguesa nos últimos anos, é fácil concluir que a emoção não tem faltado; o que tem faltado, em grande medida, é o contributo da razão.
Não há dúvida: a nossa democracia parece ter incorporado bem a lição da neurobiologia, tornando-se bastante "emotiva".
E quando a emoção se serve ainda de toda a panóplia de figuras de retórica, o seu efeito "teatral" é ainda mais eficaz.
Como entender, então, uma frase do género: "acabou o teatro!" Como efeito, ainda, do excesso de emoção; como entrada da razão em cena (na cena política); ou apenas como mais uma frase dita por um actor que acaba de entrar em palco?
Nesse caso, o teatro vai continuar. Com as consequências (bem menos teatrais) que já conhecemos.
A ver vamos.
22.3.11
geração (a)rasca
No princípio era...a canção. Dos Deolinda. Depois o fenómeno cresceu, graças, em particular, às redes sociais, como o Facebook. Nasceu a "geração à rasca". A multidão à rasca. A manifestação à rasca. Já se anunciam outros "à rasca", como o 25 de Abril: a revolução dos cravos...que murcharam. E há sobretudo cada mais textos, hipertextos, intertextos...girando em torno dessa coisa que está à rasca ou que nos deixa à rasca.
Estar ou ver-se à rasca é sentir-se em apuros, atrapalhado, em dificuldades. Mas é também, num sentido mais "popular", sentir-se já com as calças na mão, não conseguindo reter por mais tempo "o desagradável excremento que provém do interior do seu corpo", como diria Slavoj Zizek (Elogio da Intolerância, Relógio D'Água, p. 12).
Num mundo em que os velhos ideais estão em declínio, o sujeito vê-se em apuros com esse objecto abjecto que o deixa "à rasca". Se "a merda também pode servir de matéria para pensar" (permita-se dizê-lo assim cruamente, como Zizek), resta saber o que vai cada um fazer desse objecto para além de "ficar à rasca", isto é, sem saber o que fazer.
Para já, temos vindo a assistir sobretudo a um fenómeno, como diria o velho Freud, identificatório: parvos que somos.
Estar ou ver-se à rasca é sentir-se em apuros, atrapalhado, em dificuldades. Mas é também, num sentido mais "popular", sentir-se já com as calças na mão, não conseguindo reter por mais tempo "o desagradável excremento que provém do interior do seu corpo", como diria Slavoj Zizek (Elogio da Intolerância, Relógio D'Água, p. 12).
Num mundo em que os velhos ideais estão em declínio, o sujeito vê-se em apuros com esse objecto abjecto que o deixa "à rasca". Se "a merda também pode servir de matéria para pensar" (permita-se dizê-lo assim cruamente, como Zizek), resta saber o que vai cada um fazer desse objecto para além de "ficar à rasca", isto é, sem saber o que fazer.
Para já, temos vindo a assistir sobretudo a um fenómeno, como diria o velho Freud, identificatório: parvos que somos.
11.3.11
Litoral
Pía Hylén é dinamarquesa, mas não vive na Dinamarca. Andou por muitas paragens: Califórnia, Paris e, agora, Lisboa: au bord du continent, où le Tage joint la mer.
Au Bord du Continent (BD-Gráfica, Lisboa, 2010) é um livro de poesia feito de palavras, cores, aguarelas, desenhos e quatro línguas: Inglês, Francês, Português e Dinamarquês. De quantas línguas é feita a nossa língua, uma língua que seja a nossa?
Às vezes parece que uma língua se dobra na outra, como se houvesse uma passagem efémera entre ambas. À beira-mar. À beira-terra. Com a letra desenhando o litoral.
Au Bord du Continent (BD-Gráfica, Lisboa, 2010) é um livro de poesia feito de palavras, cores, aguarelas, desenhos e quatro línguas: Inglês, Francês, Português e Dinamarquês. De quantas línguas é feita a nossa língua, uma língua que seja a nossa?
Às vezes parece que uma língua se dobra na outra, como se houvesse uma passagem efémera entre ambas. À beira-mar. À beira-terra. Com a letra desenhando o litoral.
9.3.11
A (me)nina de sua mãe
Nina (Natalie Portman) foi nomeada para assumir o papel de "cisne negro". Antes de assumir este (difícil) papel, ela já tinha sido nomeada uma primeira vez por sua mãe. Nina nasceu para ser perfeita, foi nomeada para tal.
Sua mãe faz de Nina a sua (eterna) menina. Ela conta que desistiu da dança, aos 28 anos, para a dar à luz (dar à luz ganha aqui uma ressonância particular, pois se trata, verdadeiramente, de entregá-la aos holofotes, às luzes da ribalta). Mais do que desistir, a sua mãe transfere para Nina o fardo de ter de realizar um sonho interrompido. Ela não desistiu do sonho, apenas o transferiu para a filha.Nina parece ter nascido unicamente para realizar o sonho de sua mãe.
E se Nina, em vez de carecer de um diagnóstico (é sempre arriscado diagnosticar personagens de filmes), fosse, ela sim, um diagnóstico do nosso tempo, da nova ordem vigente?
A dezanove de Março de 1974, Lacan escrevia o seguinte: "ao nome do pai substitui-se uma função que não é outra senão a de nomear para, de ser nomeado para qualquer coisa. A mãe é suficiente por si mesma para designar um tal projecto, para indicar o rasto, o caminho. O poder de nomear para institui uma ordem de ferro. Será que este nomear para não é o signo de uma degenerescência catastrófica?"
Ante o declínio da Palavra que dava nome e dizia não - abrindo ao desejo um espaço, uma clareira para respirar -, a nova ordem de ferro faz de todos nós, de um modo ou de outro, nomeados para isto ou aquilo, sobretudo para a voragem de um gozo ilimitado, de uma pulsão de morte que nos consome, nos dilacera até às vísceras.
É isto que Nina incarna e ilustra singularmente; o resto é décor. Ou pouco mais.
Sua mãe faz de Nina a sua (eterna) menina. Ela conta que desistiu da dança, aos 28 anos, para a dar à luz (dar à luz ganha aqui uma ressonância particular, pois se trata, verdadeiramente, de entregá-la aos holofotes, às luzes da ribalta). Mais do que desistir, a sua mãe transfere para Nina o fardo de ter de realizar um sonho interrompido. Ela não desistiu do sonho, apenas o transferiu para a filha.Nina parece ter nascido unicamente para realizar o sonho de sua mãe.
E se Nina, em vez de carecer de um diagnóstico (é sempre arriscado diagnosticar personagens de filmes), fosse, ela sim, um diagnóstico do nosso tempo, da nova ordem vigente?
A dezanove de Março de 1974, Lacan escrevia o seguinte: "ao nome do pai substitui-se uma função que não é outra senão a de nomear para, de ser nomeado para qualquer coisa. A mãe é suficiente por si mesma para designar um tal projecto, para indicar o rasto, o caminho. O poder de nomear para institui uma ordem de ferro. Será que este nomear para não é o signo de uma degenerescência catastrófica?"
Ante o declínio da Palavra que dava nome e dizia não - abrindo ao desejo um espaço, uma clareira para respirar -, a nova ordem de ferro faz de todos nós, de um modo ou de outro, nomeados para isto ou aquilo, sobretudo para a voragem de um gozo ilimitado, de uma pulsão de morte que nos consome, nos dilacera até às vísceras.
É isto que Nina incarna e ilustra singularmente; o resto é décor. Ou pouco mais.
15.2.11
Obscenidades
Outrora o pintor Velasquez cometeu o feito de trazer para dentro da cena o que lhe era exterior. Uma "obscenidade" que abriu um precedente. Na era em que tudo deve ser visto e mostrado, as televisões e a Internet encarregam-se de elevar a obscenidade a patamares nunca dantes alcançados. E não é só a televisão ou a Internet, mas também as rádios, os jornais e as revistas de todo o mundo.
Fala-se de tudo, mostra-se tudo. E quanto mais obsceno melhor! Veja-se o tão falado caso do jovem modelo português que assassinou um conhecido cronista social num hotel de Nova Iorque (que melhor palco para vir à cena o obsceno, isto é, o que é suposto ficar fora de cena!).
A quantidade de informação (crónicas, debates, artigos, programas diversos...) que já se produziu sobre o assunto faz-nos porventura pensar que aquilo que se visa é esclarecer (isto é, trazer um pouco mais de luz, como diriam os iluministas) sobre este caso; porém, de uma forma geral, não parece haver outra finalidade senão alimentar, até à exaustão, a nossa necrofagia.
Em vez de máquinas de iluminar, como se propõem, os meios tecnológicos ao alcance de todos são, hoje, verdadeiras máquinas de obscurecer. Cegos de tanto ver, surdos de tanto ouvir!
Fala-se de tudo, mostra-se tudo. E quanto mais obsceno melhor! Veja-se o tão falado caso do jovem modelo português que assassinou um conhecido cronista social num hotel de Nova Iorque (que melhor palco para vir à cena o obsceno, isto é, o que é suposto ficar fora de cena!).
A quantidade de informação (crónicas, debates, artigos, programas diversos...) que já se produziu sobre o assunto faz-nos porventura pensar que aquilo que se visa é esclarecer (isto é, trazer um pouco mais de luz, como diriam os iluministas) sobre este caso; porém, de uma forma geral, não parece haver outra finalidade senão alimentar, até à exaustão, a nossa necrofagia.
Em vez de máquinas de iluminar, como se propõem, os meios tecnológicos ao alcance de todos são, hoje, verdadeiras máquinas de obscurecer. Cegos de tanto ver, surdos de tanto ouvir!
3.2.11
Paixão da escrita ou escrita da paixão?
Pedro Paixão é escritor. Conhecido. Reconhecido. Embora a sua forma de escrever não agrade a todos, ela entusiasma inúmeros leitores.
Para mim, além de escritor, ele é também aquele que um dia me deu aulas, sobretudo de Hegel e Wittgenstein, na Universidade Nova de Lisboa. Eram aulas simultaneamente leves e intensas, ora cortando-nos a respiração (suspensos de um raciocínio que buscava a alquimia de conseguir dizer coisas profundas de um modo simples), ora provocando-nos uma gargalhada. Às vezes, de um modo imprevisto e intempestivo, ele dava a aula por finda, como se não houvesse mais nada a dizer ou não soubesse o que dizer mais.
Tendo acabado entretanto a licenciatura em Filosofia, eu fui-lhe perdendo o rasto. Só um pouco mais tarde vim a descobrir que ele tinha começado a publicar. Foram surgindo, um após outros, diversos livros que chamavam a atenção, desde logo, pelos títulos: Viver todos os dias cansa, Amor Portátil, Nos teus braços morreríamos, Os corações também se gastam, entre muitos outros. Herdeiros, porventura, da veia "publicitária" do autor (Pedro Paixão, além de Professor de Filosofia, era sócio da empresa publicitária Massa Cinzenta), os títulos ajudaram a impor um estilo que foi conquistando cada vez mais entusiastas, nomeadamente - embora de forma não exclusiva - no público feminino.
Só há pouco anos atrás soube que Pedro Paixão - além de tudo o que eu já conhecia dele - era um "bipolar assumido". Foi, aliás, a este título que o jornal Expresso o convidou recentemente para falar, na primeira pessoa, de "uma doença que é muitas vezes associada ao mundo das artes e das letras" (Revista Única, 29 de Janeiro de 2011).
Se bem que a doença bipolar (outrora conhecida como psicose maníaco-depressiva) tivesse sido diagnosticada apenas aos 19 anos, a alternância entre estados eufóricos e depressivos que a caracteriza já se manifestara antes dos treze. Pedro Paixão fala do modo como, durante as primeiras fases depressiva até aos 13 anos, tentava lidar com o problema. Primeiro, descobriu que tocar um instrumento (um piano que existia em casa dos primos) o aliviava, tendo-lhe salvo a alma - o termo é seu - mais de uma vez; um pouco mais tarde teve lições de pintura; finalmente, por volta dos 15 anos, começou a escrever com regularidade.
Pedro Paixão descreve desta forma o que sucedia: Quando me sentia muito deprimido, ao que então nem sabia dar nome, isolava-me numa casa junto da praia. Passados alguns dias em que nada conseguia fazer, pregado a uma cama, começava a ter vontade primeiro de ler, depois de escrever. As frases e as histórias começavam a crescer dentro da minha cabeça até ao ponto de ter de pegar numa caneta e escrevê-las. Por essa altura já não sentia qualquer depressão, pelo contrário, sentia o que hoje identifico como um começo de euforia.
Mais tarde, quando começa a publicar livros, vários deles escritos muito rapidamente (como se a pressa tivesse aqui uma função, tal como na escrita da tese de doutoramento, escrita em menos de três meses), Pedro Paixão descreve assim o momento (de concluir): "aguentava" até ao seu lançamento, caindo depois, por vezes logo no dia seguinte, em depressão.
Se bem que o livro (o objecto) posto cá fora, exposto ao julgamento, à avaliação do Outro tenda a fazê-lo cair em depressão (e isto vai tão longe que o autor diz que chegou mesmo a colocar-se a hipótese - o que mostra como esse Outro exterior é também o mais interior - de ter enganado os nove professores que lhe avaliaram a tese, dado o facto de a ter escrito num tempo tão breve), é também verdadeiro, ao mesmo tempo, um outro aspecto do trabalho artístico. É o que Pedro Paixão descreve da seguinte forma: o caos que o artista sente em si é realizado, isto é, transformado num objecto, para o qual o caos migrou, dele assim, pelo menos temporariamente, se libertando.
Mas o que é, finalmente, segundo o autor, aquilo que o faz escrever?
É a dor, que também pode surgir na forma de paixão, que me faz escrever, porque ao escrever a dor esta se transforma, no melhor dos casos, em formas de beleza, que provocam uma particular, embora efémera, satisfação.
Trata-se então de sublimação (segundo o termo que Freud aplicava à arte) ou, pelo contrário, de sinthoma (como diria Lacan): o sintoma da escrita? A escrita que liga, como um fio de Ariana, os dois pólos que não sabem um do outro (o eufórico não se lembra do deprimido nem o deprimido do eufórico, como se não fossem uma só pessoa)? Algo de "intermédio" (intermediário?). Com efeito, diz o autor, essa anormal produtividade não se realiza nem no estado depressivo nem no estado de euforia, mas sim num estado de euforia suave, à qual se chama hipomania.
De tempos a tempos, o autor pergunta a si mesmo se a vida teria sido melhor e mais fácil se não sofresse desta patologia, acabando sempre por agradecer a que tem. Pelo menos, por enquanto.
Para mim, além de escritor, ele é também aquele que um dia me deu aulas, sobretudo de Hegel e Wittgenstein, na Universidade Nova de Lisboa. Eram aulas simultaneamente leves e intensas, ora cortando-nos a respiração (suspensos de um raciocínio que buscava a alquimia de conseguir dizer coisas profundas de um modo simples), ora provocando-nos uma gargalhada. Às vezes, de um modo imprevisto e intempestivo, ele dava a aula por finda, como se não houvesse mais nada a dizer ou não soubesse o que dizer mais.
Tendo acabado entretanto a licenciatura em Filosofia, eu fui-lhe perdendo o rasto. Só um pouco mais tarde vim a descobrir que ele tinha começado a publicar. Foram surgindo, um após outros, diversos livros que chamavam a atenção, desde logo, pelos títulos: Viver todos os dias cansa, Amor Portátil, Nos teus braços morreríamos, Os corações também se gastam, entre muitos outros. Herdeiros, porventura, da veia "publicitária" do autor (Pedro Paixão, além de Professor de Filosofia, era sócio da empresa publicitária Massa Cinzenta), os títulos ajudaram a impor um estilo que foi conquistando cada vez mais entusiastas, nomeadamente - embora de forma não exclusiva - no público feminino.
Só há pouco anos atrás soube que Pedro Paixão - além de tudo o que eu já conhecia dele - era um "bipolar assumido". Foi, aliás, a este título que o jornal Expresso o convidou recentemente para falar, na primeira pessoa, de "uma doença que é muitas vezes associada ao mundo das artes e das letras" (Revista Única, 29 de Janeiro de 2011).
Se bem que a doença bipolar (outrora conhecida como psicose maníaco-depressiva) tivesse sido diagnosticada apenas aos 19 anos, a alternância entre estados eufóricos e depressivos que a caracteriza já se manifestara antes dos treze. Pedro Paixão fala do modo como, durante as primeiras fases depressiva até aos 13 anos, tentava lidar com o problema. Primeiro, descobriu que tocar um instrumento (um piano que existia em casa dos primos) o aliviava, tendo-lhe salvo a alma - o termo é seu - mais de uma vez; um pouco mais tarde teve lições de pintura; finalmente, por volta dos 15 anos, começou a escrever com regularidade.
Pedro Paixão descreve desta forma o que sucedia: Quando me sentia muito deprimido, ao que então nem sabia dar nome, isolava-me numa casa junto da praia. Passados alguns dias em que nada conseguia fazer, pregado a uma cama, começava a ter vontade primeiro de ler, depois de escrever. As frases e as histórias começavam a crescer dentro da minha cabeça até ao ponto de ter de pegar numa caneta e escrevê-las. Por essa altura já não sentia qualquer depressão, pelo contrário, sentia o que hoje identifico como um começo de euforia.
Mais tarde, quando começa a publicar livros, vários deles escritos muito rapidamente (como se a pressa tivesse aqui uma função, tal como na escrita da tese de doutoramento, escrita em menos de três meses), Pedro Paixão descreve assim o momento (de concluir): "aguentava" até ao seu lançamento, caindo depois, por vezes logo no dia seguinte, em depressão.
Se bem que o livro (o objecto) posto cá fora, exposto ao julgamento, à avaliação do Outro tenda a fazê-lo cair em depressão (e isto vai tão longe que o autor diz que chegou mesmo a colocar-se a hipótese - o que mostra como esse Outro exterior é também o mais interior - de ter enganado os nove professores que lhe avaliaram a tese, dado o facto de a ter escrito num tempo tão breve), é também verdadeiro, ao mesmo tempo, um outro aspecto do trabalho artístico. É o que Pedro Paixão descreve da seguinte forma: o caos que o artista sente em si é realizado, isto é, transformado num objecto, para o qual o caos migrou, dele assim, pelo menos temporariamente, se libertando.
Mas o que é, finalmente, segundo o autor, aquilo que o faz escrever?
É a dor, que também pode surgir na forma de paixão, que me faz escrever, porque ao escrever a dor esta se transforma, no melhor dos casos, em formas de beleza, que provocam uma particular, embora efémera, satisfação.
Trata-se então de sublimação (segundo o termo que Freud aplicava à arte) ou, pelo contrário, de sinthoma (como diria Lacan): o sintoma da escrita? A escrita que liga, como um fio de Ariana, os dois pólos que não sabem um do outro (o eufórico não se lembra do deprimido nem o deprimido do eufórico, como se não fossem uma só pessoa)? Algo de "intermédio" (intermediário?). Com efeito, diz o autor, essa anormal produtividade não se realiza nem no estado depressivo nem no estado de euforia, mas sim num estado de euforia suave, à qual se chama hipomania.
De tempos a tempos, o autor pergunta a si mesmo se a vida teria sido melhor e mais fácil se não sofresse desta patologia, acabando sempre por agradecer a que tem. Pelo menos, por enquanto.
27.1.11
O poder da pergunta
Gonçalo M. Tavares foi o primeiro convidado do Café com Letras (Câmara Municipal de Oeiras) em Fevereiro de 2006. Após ter ganho entretanto diversos prémios, entre os quais o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro 2010, em França, com o seu romance Aprender a Rezar na Era da Técnica, o escritor voltou a ser entrevistado no mesmo espaço e pelo mesmo entrevistador de então, Carlos Vaz Marques, a propósito dos seus mais recentes livros publicados, no nomeadamente, Uma viagem à Índia.
A certa altura, falando-se de política, Gonçalo M. Tavares disse mais ou menos o seguinte (e cito de cor): Pensamos que somos livres pelo facto de podermos dizer sim ou não a uma pergunta que nos é feita, quando, pelo contrário, a verdadeira liberdade consistiria em poder escolher a própria pergunta, a nossa pergunta, pois não é certo que as perguntas que nos são feitas tenham algo que ver com os nossos problemas.
Na era do "inquérito" (Cf. Matteo perdeu o emprego, pp. 31-32), do questionário, a liberdade que resta ao sujeito parece ser apenas a de preencher um conjunto de casas vazias de perguntas já-feitas por alguém suposto saber quais são os nossos problemas e qual seria a boa solução para eles.
Dar espaço ao sujeito para que este formule as suas perguntas e à sua maneira; eis o que é hoje também - poderíamos dizer - uma questão política.
A certa altura, falando-se de política, Gonçalo M. Tavares disse mais ou menos o seguinte (e cito de cor): Pensamos que somos livres pelo facto de podermos dizer sim ou não a uma pergunta que nos é feita, quando, pelo contrário, a verdadeira liberdade consistiria em poder escolher a própria pergunta, a nossa pergunta, pois não é certo que as perguntas que nos são feitas tenham algo que ver com os nossos problemas.
Na era do "inquérito" (Cf. Matteo perdeu o emprego, pp. 31-32), do questionário, a liberdade que resta ao sujeito parece ser apenas a de preencher um conjunto de casas vazias de perguntas já-feitas por alguém suposto saber quais são os nossos problemas e qual seria a boa solução para eles.
Dar espaço ao sujeito para que este formule as suas perguntas e à sua maneira; eis o que é hoje também - poderíamos dizer - uma questão política.
18.1.11
Uma imensa minoria
Era o slogan de uma rádio que já não existe: para uma imensa minoria.
O senhor Manganelli, organizador das conferências do Senhor Eliot (um dos últimos livros de Gonçalo M. Tavares) começa por dizer antes de cada conferência, desculpando-se, o seguinte: Hoje não está muita gente.
Hoje não está muita gente nas conferências sobre poesia (quem quer saber disso em momentos de crise?). Hoje está pouca gente em quase todos os lugares onde o acontecimento não deita fumo, não faz barulho, não explode como um homem-bomba.
Há certos lugares, até, onde não há mais do que quatro, cinco pessoas. Não obstante, se estes quatro ou cinco tiverem um desejo decidido, uma energia que não vem dos elementos, eis que podem constituir já uma imensa minoria; tanto mais que o singular - como dizia, há vários séculos atrás, quando não havia ainda televisão ou internet, Baltasar Gracián - pode por vezes ser plural, uma pessoa pode ser muitas. Resumir numa coisa ou numa pessoa uma categoria inteira é a mais intensa espécie de singularidade.
Tanta gente, afinal...
O senhor Manganelli, organizador das conferências do Senhor Eliot (um dos últimos livros de Gonçalo M. Tavares) começa por dizer antes de cada conferência, desculpando-se, o seguinte: Hoje não está muita gente.
Hoje não está muita gente nas conferências sobre poesia (quem quer saber disso em momentos de crise?). Hoje está pouca gente em quase todos os lugares onde o acontecimento não deita fumo, não faz barulho, não explode como um homem-bomba.
Há certos lugares, até, onde não há mais do que quatro, cinco pessoas. Não obstante, se estes quatro ou cinco tiverem um desejo decidido, uma energia que não vem dos elementos, eis que podem constituir já uma imensa minoria; tanto mais que o singular - como dizia, há vários séculos atrás, quando não havia ainda televisão ou internet, Baltasar Gracián - pode por vezes ser plural, uma pessoa pode ser muitas. Resumir numa coisa ou numa pessoa uma categoria inteira é a mais intensa espécie de singularidade.
Tanta gente, afinal...
13.1.11
Nas nuvens
Não estou a ver-me proprietário de uma "nuvem". Era este o lamento de Franscisco José Viegas, no seu último Diário de ocasião (Revista Ler, Janeiro 2011), a propósito da recente criação, por parte do Google, de um leitor (ebook) de livros on line, sempre acessíveis, uma vez que não estarão alojados num determinado hardware, mas existirão virtualmente numa "nuvem".
A nuvem (cloud) em questão, embora não existindo fisicamente, é cada vez mais a habitação dos humanos: para comunicar, para ler, para escrever, enfim, para quase tudo. Estar nas nuvens tem qualquer coisa de apelativo, que atrai os corpos para cima, como as árvores, num movimento que desafia a gravidade. Ainda assim, muitos daqueles que gostam mesmo de livros, teimam em resistir ao apelo das nuvens. A nossa vida está a mudar muito rapidamente e sinto-me um reaccionário - escrevia Francisco José Viegas.
As nuvens é uma conhecida peça de Aristófanes; mas o que nele era cómico, tornou-se ultimamente um caso sério. Estamos a assistir, progressivamente - e a um ritmo cada vez mais acelerado - à desmaterialização do mundo. E isso pode dar-nos a ilusão de que o real - a chuva que cai realmente da nuvem - já não faz estragos. Mas faz.
A nuvem (cloud) em questão, embora não existindo fisicamente, é cada vez mais a habitação dos humanos: para comunicar, para ler, para escrever, enfim, para quase tudo. Estar nas nuvens tem qualquer coisa de apelativo, que atrai os corpos para cima, como as árvores, num movimento que desafia a gravidade. Ainda assim, muitos daqueles que gostam mesmo de livros, teimam em resistir ao apelo das nuvens. A nossa vida está a mudar muito rapidamente e sinto-me um reaccionário - escrevia Francisco José Viegas.
As nuvens é uma conhecida peça de Aristófanes; mas o que nele era cómico, tornou-se ultimamente um caso sério. Estamos a assistir, progressivamente - e a um ritmo cada vez mais acelerado - à desmaterialização do mundo. E isso pode dar-nos a ilusão de que o real - a chuva que cai realmente da nuvem - já não faz estragos. Mas faz.
11.1.11
Um pau para toda a obra
Diz-se por aqui (não sei se também é assim no Brasil ou nos outros países que falam português) que há coisas que são "paus para toda a obra". Um pau para toda a obra é uma coisa que serve para tudo, onde cabe tudo, como um recipiente sem fundo ou um armazém que se vai alargando à medida que se enche. Um armazém elástico, por assim dizer, passe a imagem "fálica".
Há palavras que são paus para toda a obra, que servem para tudo ou quase. É o caso, por exemplo, da palavra crise. Volta e meia, ela entra de novo na dança e gira como fogo preso.
Pela quantidade e qualidade do que já se disse, dos livros e revistas que se venderam em seu nome, dos inúmeros artigos de opinião e debates televisivos consagrados ao tema, é fácil de ver que a CRISE não pára de dar frutos. É muito produtiva! Uma abundância! Há mesmo pessoas e instituições que entrariam em crise se a crise terminasse.
Mas a crise não vai terminar porque - como diz o último número da REVISTA LER (Janeiro 2001), ainda agora começou. Por isso, vai continuar a dar que PHALAR!
Há palavras que são paus para toda a obra, que servem para tudo ou quase. É o caso, por exemplo, da palavra crise. Volta e meia, ela entra de novo na dança e gira como fogo preso.
Pela quantidade e qualidade do que já se disse, dos livros e revistas que se venderam em seu nome, dos inúmeros artigos de opinião e debates televisivos consagrados ao tema, é fácil de ver que a CRISE não pára de dar frutos. É muito produtiva! Uma abundância! Há mesmo pessoas e instituições que entrariam em crise se a crise terminasse.
Mas a crise não vai terminar porque - como diz o último número da REVISTA LER (Janeiro 2001), ainda agora começou. Por isso, vai continuar a dar que PHALAR!
Subscrever:
Mensagens (Atom)







