Talvez fosse melhor dizer: as caixinhas em que nos metemos ou deixamos meter. É que há nisto também, sem dúvida, uma responsabilidade nossa.Serve isto de introdução para algo que vou contar. Um dia destes, uma colega minha pediu-me para preencher um questionário sobre a "maneira de ser" e a estratégia de lidar com o mal-estar no trabalho". Era para o filho, disse, que estava a realizar um trabalho para a cadeira x na universidade y.A instrução dizia: responda de forma rápida, honesta e espontânea. De forma rápida e espontânea, vá que não vá; agora, ao mesmo tempo, de forma rápida, espontânea e, ainda por cima, honesta é obra!O que é preciso é fazer sem pensar!Por exemplo: pensar que, no fim de contas, depois de sermos metidos em caixinhas previamente definidas ficamos todos iguais, uniformizados, catalogados e bem arrumados, segundo etiquetas pré-definidas, perdendo, desse modo, o que nos singulariza e torna "objecção" a toda a ditadura do universal. Um ser vivo, humano, dissonante em permanência, não cabe em "cinco possibilidades" (ou até que fossem mais...), sejam elas quais forem, por mais (pseudo) científicas que pareçam.Só os mortos se podem "arrumar" e "catalogar" definitivamente.
Há coisas - como uma psicanálise, por exemplo - que não são objecto de generalização, visto que não têm por "objecto" o que é igual para todos, antes o que é diferente e singular para cada "sujeito".Contrariamente ao que crê uma certa retórica "cientista" e avaliativa, "ela não pode provar-se por melhorias mensuráveis; só pode experimentar-se por meio de um testemunho e transmitir-se através de um ensino que leve em conta o obstáculo que o sintoma opõe à teorização" (BADAL, C.-L.,"Sur le cognitivisme - le langage de l'homme sans qualité", L'anti livre noir de la psychanalyse. Paris: Seuil, 2006, p. 276).Isto não significa que ela se oponha à ciência (que tem na objectividade a sua pedra de toque), antes que se propõe acolher e escutar o que a ciência exclui por definição: o sujeito.É por estas e outras razões que a revista Règle du jeu (dirigida por Bernard-Henri Lévy) decidiu dedicar o seu número 30 (Janeiro de 2006), sob o título: psychanalyse: contre-attaque, a um enxame de testemunhos sobre a experiência psicanalítica ou a marca, diversa e singular, que o encontro com a psicanálise e/ou com um psicanalista gravou nos mais variados sujeitos.
Que um país esteja a mudar não se percebe apenas pela transformação da sua paisagem física e mental, mas também pelas mudanças na sua "paisagem" sonora: a música que se faz e escuta, o timbre e o sotaque das vozes, os tons, os ritmos...Quem habita quotidianamente uma paisagem não se apercebe tão facilmente dessa mudança como alguém que vem de fora, trazendo um olhar ainda não completamente saturado de hábito.É o caso, por exemplo, de Ariel de Bigault, uma parisiense que acompanhou, desde os anos 70, essa profunda mudança na "paisagem" portuguesa (sonora, arquitectónica ou outra), em especial a de Lisboa, onde vem frequentemente.Lisboa@com.fusion é um disco que reune 17 artistas musicais, alguns mais representativos ou conhecidos que outros (e mesmo os mais conhecidos, como Madredeus, por exemplo, aparecem sob um aspecto familiarmente estranho), mas cada um deles ajudando a construir uma "paisagem" sonora que Ariel de Bigault, que fez a selecção dos artistas incluídos na colectânea e escreveu os textos, caracteriza - e bem, a meu ver - como sendo de "fusão". Lisboa é cada vez mais uma com-fusão sonora, onde os sotaques diversos da língua portuguesa do espaço lusófono(Portugal, África, Brasil...) - neste ponto, ao menos, o malogrado Agostinho da Silva foi "visionário" - coabitam com outras línguas e outros sotaques, gerando, em conjunto alíngua (como escrevia Lacan) em que nos vamos des-dizendo. Se "os sotaques enriquecem a língua portuguesa" - como escreveu Ariel de Bigault na introdução - então eu gostava de destacar, entre todas, uma interpretação de Lula Pena, logo a abrir o disco, de um repertório português e brasileiro, "sodade" e "rosinha dos limões". É o "sotaque" feito obra de arte.
A poesia era a "ciência" de um tempo em que não havia ciência; num tempo em que (só) há ciência, o que é a poesia?A poesia é a respiração da língua.Toda a língua é morta (é dicionário) até que cada um de nós a faz respirar boca a boca, singularmente.Num tempo em que a alma se retrai perante a linguagem fria da cifra, a inutilidade sagrada da poesia há-de ensinar-nos outra vez a respirar!Ao sindicato dos poetas - se o houvesse! - diria, hoje, neste dia mundial da poesia: coragem, só mais um pouco de alma!
Com a morte de Fernando Gil, no Domingo, o pensamento em geral e a filosofia em particular ficaram mais pobres.Recordo-me de ter escutado da sua boca, não há muito tempo, numa entrevista que o filósofo deu a um canal de televisão, o seguinte: interesso-me cada vez mais pelo que está antes e depois da ciência. Para alguém que dedicou grande parte da sua vida a reflectir sobre a ciência (Provas, Mimesis e Negação, etc.) não deixa de ser paradoxal. Mas talvez o paradoxo seja aparente: com efeito, o que lhe interessava, desde os primeiros trabalhos, na ciência não era propriamente "científico", mas outra coisa: a prova, de que esta é capaz, a evidência para que aponta, mas que a transcende, a convicção que gera(é curioso que muitos dos testemunhos que pude ler hoje no jornal Público salientavam precisamente esse traço: "um homem de convicções fortes"), tal como veio progressivamente a evidenciar-se em trabalhos posteriores e mais recentes como: Tratado de Evidência, Modos de Evidência ou Acentos. E não se pode falar de "convicção", por exemplo, sem fazer entrar em jogo, ao lado do objecto científico, aquilo a que chamaria - não me ocorre outra palavra - um sujeito.O que está antes e depois da ciência é também a vida e a morte. Fernado Gil, costumava dizer a propósito, parafraseando o velho Platão, que a "filosofia é uma arte de morrer". Não é a morte, afinal, o último acento da vida?A minha sentida homenagem!
Há quem tema ou acuse o motor de pesquisa Google de estar a tornar-se num novo Big-brother devido à quantidade de informação "privada" que tem vindo a acumular sobre todos nós à escala mundial.Agora, porém, este motor de pesquisa foi a tribunal, na terça-feira, para defender os «direitos dos seus utilizadores», recusando-se a entregar as listas de dados exigidas pelo Departamento de Justiça dos EUA. As autoridades norte-americanas exigiam que o maior motor de busca na Internet entregasse todos os dados disponíveis no sentido de melhorar o policiamento no ciberespaço. A empresa norte-americana afirmou que aceitar esta exigência iria pôr em causa a privacidade dos seus clientes e comprometer os serviços prestados.Parece haver, por enquanto, um resto de pudor!Ou será apenas um poder a fazer frente ao Outro?
A capa faz lembrar os velhos tempos em que as paredes serviam de suporte a escritos rebeldes e panfletários. E por que não dizer - sem medo da "traição" das palavras - que há algo de assumidamente "rebelde" em cada uma das "alfinetadas" (coups d'épingle) que constituem este Anti-livro negro da psicanálise!Não se trata aqui de um estilo "defensivo" (como se a psicanálise estivesse ameaçada na sua produtividade ou fulgor criativo), mas antes um Contra-ataque (segundo o título que a revista La Règle du Jeu deu ao seu número de Janeiro último). Não um "contra-ataque" directo, imaginário, ao "Livro negro" - segundo o que o título pode sugerir - ou mesmo a este ou àquele autor, a este ou aquele relatório, a esta ou aquela medida, mas aos "fundamentos" (epistemológicos, clínicos, políticos e éticos) que estão na base dos recentes "ataques" à psicanálise.Um a um, com ironia e humor, são desmontados os vários argumentos que sustentam a superioridade performativa de certas "práticas", designadamente as terapias cognitivo-comportamentais, relativamente à psicanálise.E sobretudo, fica-se com a sensação, depois de ler os diversos artigos, que não está em causa simplesmente a oposição entre dois tipos de práticas "terapêuticas", mas, acima de tudo, de dois "conceitos" incompatíveis do ser humano.A escolha é de cada um enquanto o mal (não) é de todos!
Às vezes só muito dificilmente conseguimos segurar o sono.Cientistas britânicos estão à beira de resolver o problema com a invenção de um fármaco que irá reduzir a necessidade de sono para apenas duas horas diárias sem que isso afecte o rendimento das pessoas. Os mesmos cientistas sonham já - pois quando se fala de sono, o sonho anda por perto - em superar completamente a necessidade de sono, com base na compreensão do relógio biológico humano, durante vários dias consecutivos.Depois da(s) pílula(s) da felicidade, do Viagra, cada vez mais duradouro e potente (isto faria, com certeza, as delícias de Jeremy Bentham, que acreditava que a felicidade residia no prazer e que este era medido segundo a duração e a intensidade), chegou agora a vez do fármaco do sono, melhor seria dizer, da vigília. E aí temos um novo e admirável indivíduo de alta performance, como se diz, por exemplo, dos automóveis. Não se trata de pôr em causa este e outros conseguimentos técnico-científicos - muitos outros vêm já a caminho; o que é preciso, talvez, é interrogar o desejo que sustenta uma tal pretensão da tecno-ciência na era do discurso capitalista.Com efeito, a quem interessa um sujeito-máquina (gadget), de alta performance, com pouca ou quase nenhuma necessidade de dormir, sem ser afectado no seu rendimento, sempre a produzir, qual trabalhador ideal que (ainda) não existe na realidade?Vale a pena pensar nisto, como é costume dizer-se na RFM.
De vez em quando recebo um eco, uma prova de que ao-menos-um ou dois, não apenas entram neste blog, mas dão-se ao trabalho de ler o que nele escrevi. Desta vez, recebi, para ser mais rigoroso, dois comentários: um do Francisco Alves, bastante crítico, dizendo que eu falava sem conhecer, ou conhecendo pouco, da obra imensa do pensador Agostinho da Silva; outro, da Alexandra Lúcio, estabelecendo um paralelo entre um excerto da minha "postagem" e uma hipótese emitida por Jean Pierre Caillot sobre a "perversão".Ao Francisco Alves já respondi por e-mail; respondo aqui à Alexandra. Escolho, para isso, um outro texto de Agostinho da Silva, intitulado: "Sobre a ideia de Deus" (in Dispersos)Sendo Deus um dos nomes-do-pai por excelência, o que vemos neste texto é uma certa "père-version"(como dizia Lacan) de Deus, ou seja, uma versão do pai segundo a qual "Pai e Filho, sujeito e objecto, tempo e eternidade, Deus e o mundo, são apenas as duas faces (aparentes) de uma mesma banda de moebius a que Agostinho da Silva dá o nome de "Espírito Santo". Ou talvez, melhor dizendo, se pudesse falar aqui de uma espécie de "nó de trevo", mas falso (Cf Lacan, Seminário XXIII, Le Sinthome, p. 92), de tal forma que há "um erro em alguma parte no nó a três que faz com que este se reduza ao "círculo" (rond). Sob os contrários, tão ao gosto de Agostinho da Silva, ou sob a Trindade (do Pai, do Filho e do Espírito Santo), há um-todo-absoluto: "dele se não pode falar, ou o sentimos ou não sentimos"."Ecúmena" é um outro nome para este "Absoluto". E é por dever ser "uma nação ecuménica", segundo a expressão de Agostinho da Silva, que cabe a Portugal o papel de "quarto elemento" neste falso nó a três.
Educar, governar e psicanalisar eram, para Freud, três nomes do impossível.Há quem diga que Portugal é ingovernável, que não é educável nem mesmo psicanalisável, apesar das tentativas de fazer a psicanálise mítica (Eduardo Lourenço) do destino português.Dito isto, tem havido por parte deste último governo, socrático, uma clara aposta na governação e na educação. Ele parece querer passar ao acto onde outros, como Guterres, não passavam do blá-blá-blá. Parafraseando Marx, onde aqueles se limitaram a pensar o mundo, este governo propôs-se transformá-lo. Em particular: o mundo da educação. Na verdade, para bem dos nossos jovens e do futuro radioso do país, não há mês, semana, dia em que não saia mais uma medida inovadora - e geralmente muito aplaudida por quem é leigo no asssunto ou eloquentemente falacioso, como José Lello, o propagandista de serviço deste governo: o Inglês, no Primeiro Ciclo, os planos de recuperação e desenvolvimento para o Ensino Básico, as substituições para o Básico e, agora, diz-se, para o Secundário, enfim, uma panóplia de remédios para sarar o mal-estar na educação.Entre falar ou agir, pensar (muito) e decidir (pouco), a aposta é clara: agir, fazer, mesmo se em vão, de qualquer maneira, em cima do joelho. Agir de forma a que se veja, pois, como se diz, uma imagem vale mais do que mil palavras. Dar a ver tudo quanto se faz e desfaz.O resultado? Uma luta de puro prestígio (Hegel) entre o governo, barricado, de um lado, e os sindicatos, do outro. Não se trata de ver quem tem razão, mas de medir forças. Não há diálogo, mas apenas dois monólogos. Nisto tudo, a educação não passa de um pretexto. Quando a chama se extinguir, o que restará deste confronto político-educacional será apenas cinza ou algo mais?Talvez então se perceba que não se trata de opor o dizer ao fazer, mas de bem dizer algo que faça acto.
Agostinho da Silva faria hoje 100 anos. Volta a falar-se dele um pouco por toda a parte: nos jornais, na rádio, na televisão.
Foi em finais dos anos oitenta que o conheci. Eu era estudante de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa e ele uma celebridade. Num anfiteatro a abarrotar de alunos e professores, lembro-me que lhe fiz, timidamente, uma pergunta sobre...gatos. Que mais haveria de ser? Eu desconhecia tudo acerca do seu "pensamento" e, como ele, também gostava de gatos.
Nos anos oitenta, ele estava na moda. Estar na moda não significa que houvesse "consenso" em torno do seu discurso, da sua pose ou do seu pensamento. Pensando bem, a minha pergunta sobre "gatos" (mais concretamente, qual a relação dos gatos com a filosofia?) tinha um não sei quê de "cínico" e provocador. O mais curioso é que Agostinho da Silva, em vez de a rejeitar como impertinente, lá foi desfiando uma série de paradoxos, como era seu estilo, em torno da questão que eu lhe colocara. Afinal quem era aquele homem que levara a sério - mas sempre a brincar - uma pergunta colocada em jeito de graça?
Quem é este homem perante o qual voltam a ajoelhar-se uma série de personalidades, seduzidas por um certo "efeito de fascinação" que ele produz(iu)?
Talvez a sedução derive do facto de que ele era um pensador difícil de situar, atópico, paradoxal, "nómada" - como alguns lhe chamaram - criador ou envolto numa certa "aura" (Olga Pombo, hoje, na TSF). José Gil talvez lhe chamasse "nevoeiro": o nevoeiro que tem envolvido, ao longo de séculos, um certo pensamento e um sem número de poetas, pensadores e gente mais ou menos comum: Bandarra, Vieira, Pessoa, Agostinho, Oliveira (veja-se o filme sobre o "quinto império", todo envolto em nevoeiro)...
O "nevoeiro" faz-nos recuar, por temor ou respeito. Produz em nós um fascínio semelhante ao da cobra sobre a presa que vai ser devorada.
Estive a ler recentemente um texto de Agostinho da Silva intitulado "Ecúmena" (in Dispersos. Lisboa: Instituto da Língua e da Cultura Portuguesa, 1988). É um texto não muito longo, mas nele aparecem todas as virtudes e todos os vícios do seu "pensamento". "Ecúmena" é, talvez, a palavra que diz melhor acerca do desejo que o habitava: "o desejo supremo de fusão no uno" (op. cit., p. 227).
Afinal, sob a aparente multiplicidade e diferença, paradoxo e nomadismo de conceitos e termos, há um: desejo de fusão, de elimação dos contrários, de superação das antinomias, de redução da diferença ao mesmo. O "espírito Santo" (ligando pai e filho), o "quinto império" (ligando Portugal ao mundo, a passado ao futuro) são outros tantos nomes para esse desejo de anular a diferença com vista ao estabelecimento de uma "verdade total" (p. 240). Esta verdade total não é mais do que a explanação progressiva, segundo uma história sem história, do que cada povo é, mesmo antes de o ser, segundo uma ideia recorrentemente afirmada.
A atracção do um (mítico) deve-se ao facto de que ele é suposto esbater todos os entraves a um gozo que se imagina pleno, o gozo de que estamos estruturalmente separados pelo facto de sermos animais falados e falantes.
Talvez isto ajude a perceber a razão por que Agostinho da Silva gostava tanto de gatos (imagem da harmonia sonhada) e fazia a apologia de um ensino cuja missão era, in extremis, deixar ser (as crianças, os alunos...), deixar gozar, em vez de "ensinar", de-formar, en-formar. Rousseau não anda muito longe.
Dizia Agostinho da Silva na Última Conversa (Entrevista de Luís Machado, Casa das Letras, 1991): "Creio que, para aturar a vida presente, não é de paciência que precisamos; o que é preciso é acreditarmos no futuro com entusiasmo" (p. 89).
Mas não tem sido esta impaciência e incapacidade dos portugueses em relação à transformação do presente que nos tem secularmente atraído para um passado mítico (que nunca existiu efectivamente) e para um futuro místico (que nunca chega a existir)?
Apesar de tudo, há excepções - vou referir apenas duas - que nos dizem que é possível uma outra via.
Um povo que fez, do sintoma, música e canção: o fado.
Um escritor que fez, do sintoma, obra: Saramago.
O próprio Agostinho da Silva não está todo nessa cosmo-teologia. Valha-nos isso.