11.1.06

Os três EFES


Os astros fazem a sua revolução periódica e voltam sempre ao mesmo lugar.

No fim do ciclo, tudo espremido, o resultado é confrangedor: Fado, Fátima e Futebol.

O mesmo de sempre.

Marisa e Madredeus. Figo e Mourinho. Lúcia e (ai) Nossa Senhora.

É só isto, Portugal?

10.1.06

O terceiro sexo


Homens "feminizados", mulheres "virilizadas": eis o que ganha terreno e audiência no espaço mediático.

O efeito (ou o desejo que o sustenta) é um progressivo esbatimento da diferença sexual, como se a milenar "guerra dos sexos" tivesse um estranho desfecho: a recíproca transformação dos beligerantes. Sem adversário não há guerra. É um sonho.

Livros, filmes, programas televisivos: tudo serve para dar a ver esta nova "metamorfose" bem pouco kafkiana de tão rotineira. Vamo-nos habituando a este novo "real".

A anatomia é cada vez menos o destino.

9.1.06

Personagens intempestivamente oportunas
















http://parolesdesjours.free.fr/lacan.htm http://parolesdesjours.free.fr/chemin.htm

Publixação


Em Portugal, os grandes autores e as grandes referências ou não se publicam, ou não se lêem, ou não têm efeitos. Não fazem "acontecimento", como diria José Gil na esteira de Deleuze.

No entanto, parece que os números dizem que se publica cada vez mais. Há novos editores. Provalvelmente novos leitores.

Como explicar este paradoxo?

Eis a meu contributo para a reflexão: publica-se cada vez mais...para o lixo. Publixa-se.

Coisas breves, sem muitas "calorias", facilmente digeríveis, pois é preciso digeri-las bem para andar bem consigo e com os outros. Coisinhas pequeninas que dão um suplemento de "gozo" (bem doseado) à "vidinha" em que nos está a transformar o discurso "médico-científico". Coisas doces sem acúcar. Diet. Ligt. Soft.

É a preocupação com a "leveza". Até o director do Diário de Notícias , hoje, em entrevista à TSF, dizia que uma das características da nova cara do Jornal é ser mais leve e arejado.

Basta entrar numa grande superfície para ver que não há praticamente diferença entre os livros expostos e cebolas, alhos ou batatas. Coisas para consumir e...obrar.

Daqueles autores e daqueles livros que nos davam um murro no estômago quando os abríamos, quase nem se ouve falar. São demasiado "pesados"e indigestos para o tempo que corre.


2.1.06

Uma época sem vergonha


De um ponto de vista "analítico", mais do que julgar moralmente os acontecimentos (já Nietzsche, o filósofo, pugnava por uma interpretação para além do bem e do mal), importa destacá-los como "sinais" ou significantes do tempo, como reveladores de algo que muda ou que está a mudar, e suas implicações para o sujeito ou o homem desse tempo.

Um desses sinais reveladores é o fenómeno crescente de "exibicionismo" que parece contaminar todos os domínios, de que a televisão e a Internet são exemplos paradigmáticos na medida em que promovem ou espelham essa tendência no seu grau mais elevado.

Um exemplo disto é o afã com que se mostram, divulgam, publicam, publicitam, exibem...hoje aquelas "coisas" que tradicionalmente havia pudor em revelar, sendo, por isso, guardadas numa gaveta da alma, bem longe dos olhares indiscretos; excepcionalmente, algumas pessoas privilegiadas poderiam ter acesso a essas "intimidades".

O que mudou, entretanto, foi que passamos de uma época em que havia pudor em revelar, mostrar ou exibir certas coisas para uma época em que é "pudor" não as revelar, mostrar ou exibir.

Adiantamo-nos, assim, ao enigma no desejo do Outro propondo-lhe uma resposta: !

(Uma intimidade: dizia-me alguém, recentemente, que já não consegue abrir todos os e-mails que enchem quotidianamente a sua caixa de correio electrónico e ver todas as imagens - supostamente interessantes - que lhe dão a ver. Assim, a uma nova modalidade de gozo acrescenta-se uma nova forma de angústia).


23.12.05

O senhor e o escravo


Numa entrevista que deu em Buenos Aires a María Esther Gilio*, o psicanalista Jacques-Alain Miller recordava, a propósito da situação política naquele país, uma frase bíblica que me parece bem oportuna relativamente ao que tem acontecido na pré-campanha eleitoral que está actualmente a decorrer no nosso país.

Eis a frase, em espanhol, tal como Miller a disse: "El hombre es amo de sus silencios y esclavo de sus palabras" (sic). O homem é senhor dos seus silêncios e escravo das suas palavras.

Será desnecessário identificar quem tem sido, nesta história, o homem senhor dos seus silêncios e o homem escravo das suas palavras...

Àquele que se cala, supõe-se saber (mesmo que não saiba), ao que fala "barato", des-supõe-se.

Costuma dizer-se também que "pela boca morre o peixe" (fish, em inglês, como se dizia, no tempo das vacas gordas, do candidato que se colou demasiado ao nome que lhe deram).


* http://www.antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=410

21.12.05

Feliz Natal e um paradoxo


Um dos muitos paradoxos que enxameiam o nosso tempo tem a ver com a família: ao mesmo tempo que não cessamos de passar-lhe uma certidão de óbito – e é verdade que ela se decompõe e afunda cada vez mais – assistimos igualmente, o que não deixa de ser estranho, a uma crescente reivindicação por parte de muitos homossexuais a poder casar e “ter” filhos, ou seja – não consigo, de momento, encontrar outro nome – a constituir “família”.

Não importa se esta família é bizarra aos olhos da tradição, se dá que pensar ou causa polémica. O desejo que a habita é ainda “familiar”, queira-se ou não.

Talvez porque a família tenha sido, historicamente, uma poderosa e inventiva solução para os problemas que o real nos coloca. Tão poderosa e inventiva que ainda não perdeu, por completo, o seu poder de atracção.

Veja-se, a título de exemplo, o que resta do Natal depois que os deuses debandaram: a festa da “família”.

13.12.05

A fonte da cultura


DUCHAMP, Marcel, Fonte, 1968

Num texto recentemente publicado pelas Éditions du Seuil, « Mon einseignement, sa nature et ses fins » (in Mon Einseignement, 2005), Jacques Lacan diz o seguinte : « Diferentemente do que se passa em todos os domínios do reino animal (…) o homem caracteriza-se na sua natureza pelo extraordinário embaraço que lhe dá – como chamar isso? Meu Deus, da maneira mais simples – a evacuação da merda” (p. 82).

É uma passagem onde se fala da TV como um veículo que permitirá, de ora em diante, a cada um de nós chegar a todo o instante à cena do mundo (antes da hegemonia da televisão, dir-se-ia o palco) para estar ao corrente de tudo o que é cultural. Nada do que é cultural nos escapará.

Relacionar o mais “sublime” da espécie humana com o mais “abjecto”, não deixa de ser paradoxal. No entanto, Marcel Duchamp não fez outra coisa, ao virar toda a cultura do avesso para a fazer beber numa “fonte” de água muito pouca benta: o seu famoso “urinol”.

Quando ontem, na Sic, ao fazer um zapping entre o sexo dos anjos (a conversa fiada dos políticos) e o Absexo (conversa desfiada sobre sexual -idades), deparo com um sujeito – chamo-lhe assim porque desconheço o seu nome (não tenho muita cultura televisiva) – sentado em cima de uma sanita a dizer coisas sobre…merda. Usando metáforas, metonímias e outros quejandos retóricos, ele falou, durante um bom pedaço de tempo, das várias formas de evacuar e dos prazeres ou desprazeres a isso associados.

Eis para que serve a TV: para dar a merda a ver (pois os olhos também comem) como um prato culturalmente requintado!

Isso obra, isso fala, isso faz falar, isso dá que falar. É toda uma cultura, todo um mundo imundo.

10.12.05

@ coisa sexual


MAGRITTE, R., A Filosofia no Quarto de Dormir, 1966

Dizia Lacan, numa conferência que deu em 1967, que há qualquer coisa que mudou, desde Freud, no que toca à sexualidade: esta tornou-se bastante “mais pública”*.

No que a nós, portugueses, diz respeito, mostra-se e fala-se disso como nunca. Programa televisivo que não tenha, de forma mais ou menos explícita, uma componente sexual, parece fora de moda.

A TVI tem dado cartas nesta matéria. A sua última jogada chama-se “AB…Sexo”, que é como quem diz: um contributo “sexológico” para tirar os portugueses da “iliteracia” sexual, ensinando-lhes o respectivo alfabeto do prazer.

No momento em que se continua a discutir a introdução nas escolas de uma disciplina de Educação Sexual, a TVI antecipa-se na educação sexual dos portugueses. Tudo ali parece ter solução. Se disfunciona, faz-se funcionar: por meio de um conselho psicológico, de uma técnica “erótica”, de uma prótese ou de um fármaco.

A cada um o seu quinhão de gozo!

O problema – um dos problemas – é que no ser humano, bicho estranho, o gozo emaranha-se no desejo, o desejo no gozo, embaraçando-se mutuamente. Como dizia uma convidada da última semana, muitas vezes os problemas nascem do outro, de o nosso desejo está enganchado no desejo do Outro. É aí que a prótese inconsciente, que na espécie humana supre a ausência de instinto, começa a fazer das suas. Para mal ou bem dos nossos pecados.

*LACAN, Jacques., “Place, origine et fin de mon enseignement”, in Mon enseignement. Paris : Seuil, 2005, p. 28.

4.12.05

O mel da tristeza

Music, Zoran, Poltrona Grigia, 1998

Estudos recentes parecem revelar que nós, portugueses, somos dos mais tristes da Europa. É como se houvesse mel na tristeza, uma espécie de néctar que nos atrai.

Será isto “cobardia moral” ou o nome do sintoma, por excelência, que nos habita?

Sermos habitados pelo ver(me)bo que nos corrói e dilacera, deixa-nos um pouco tristes.

A crer no que Jorge Calado escreveu no último expresso (Revista Única, 3 de Dezembro de 2005, pp. 24-28), a propósito da monumental exposição que decorre actualmente em Paris sobre este tema, a melancolia não é nossa nem de agora, mas uma espécie de constante que resiste ou subjaz às diversas metamorfoses por que passou ao longo do tempo e das diversas abordagens de que foi alvo: Bílis Negra, Acedia, Spleen, depressão, etc. Mudam-se os tempos e os nomes, mas ela, permanece.

Não será a melancolia um dos nomes do sintoma (ou, como escrevia Lacan, Sinthoma) incurável que nos habita? Se assim for, então não se trata apenas de saber como fazê-la desaparecer, mas como usá-la bem. Parafraseando G. Perec, poderíamos dizer: melancolia, modos de usar.

É em torno desses modos de usar da melancolia que gira o dossiê consagrado ao tema pelo nº 8, Hors-Série, do Magazine Littéraire (Outubro-Novembro de 2005). Vale a pena ler!

Para informações complementares:
www.magazine-litteraire.com

1.12.05

O beijo da polémica

Klimt Gustav, O Beijo


Algures, numa escola do país, duas jovens são vistas a beijar-se.

Estala a polémica e muitos comentadores se dão ao trabalho de tecer considerações sobre o facto (até o consagrado António José Saraiva lhe dedica, no Expresso, algumas linhas).

A perspectiva adoptada pela generalidade dos que tomam a palavra tem um cariz “moral”: deve ou não permitir-se, tolerar-se, etc. que duas jovens se beijem em frente de outros, nomeadamente os seus colegas de escola, funcionários ou professores.

O que faz aqui sintoma?

É verdade que beijos entre alunos sempre houve desde há muitos anos – sobretudo depois que a revolução de Abril soltou o beijo – mas agora trata-se de um beijo entre alunas. É, portanto, um beijo homossexual. É a homossexualidade, nomeadamente entre mulheres, que aqui faz (ainda) sintoma.

Por outro lado, se os beijos entre alunos sempre existiram, eles eram furtivos, clandestinos, jogando às escondidas com os outros: professores, funcionários, pais. A sua magia parecia residir no interdito, no fruto proibido. Os enamorados retiravam-se para onde o olhar do Outro (é ainda o tema glosado por Orwell no seu 1984) não os pudesse surpreender.


É por isso que talvez valha a pena, em vez de enfileirar na polémica moralizante, mudar de ângulo e tentar perceber se neste gesto banal do quotidiano não se revela uma mudança de paradigma que vai mais além de saber se o beijo é homo ou heterossexual.

Não vivemos nós numa “sociedade transparente” (G. Vattimo) ou do “espectáculo” (G. Debord) onde tudo tem de ser mostrado, exibido, onde a intimidade é esconjurada como um demónio ou espírito maligno? Não passamos nós a viver numa “servidão voluntária” perante o olhar imperial do Outro (quer ele se chame panóptico, big-brother, televisão, Internet e sei lá que mais)?

Um novo imperativo passou a comandar-nos: Mostra!

É de um gozo escópico que aqui se trata.