14.11.05

Retrato


Slavoj Zizek (1949), doutor em Filosofia e em Artes, é investigador superior do Instituto de Estudos Sociais de Liubliana, Eslovénia, e Professor visitante na New School for Social Research de Nova Iorque e da Universidade de Paris VIII. Nos últimos quinze anos participou em inúmeros simpósios sobre crítica cultural, filosófica e política e teve uma participação polítca activa na República da Eslovénia. Entre os seus livros contam-se: Tudo o que queria saber sobre Lacan e nunca se atreveu a perguntar a Hitchcok, Goza o teu sintoma, Por que não sabem o que fazem, O espinhoso sujeito, entre muitos outros. É um dos raros "filósofos" que domina e leva a sério a subversão introduzida no pensamento contemporâneo pelo ensino de Lacan. Nele se poderá aplicar não só a expressão de Jacques-Alain Miller que diz que a psicanálise causou um "trauma" na filosofia ("Psychanalyse-philosophie", Des philosophes à l'envers". Nº Hors-Série: Horizon, Janeiro 2004, pp. 100-101), mas igualmente que "subverteu" o modo tradicional de "filosofar".

Para mais informações bibliográficas: http://lacan.com/bibliographyzi.htm

10.11.05

Goza!

Tem-se visto, ouvido e lido nos últimos dias um pouco de tudo a propósito dos "acontecimentos" nas periferias de muitas cidades francesas.

Serão "inconscientes" os jovens que provocam tamanho caos?

A minha resposta é: NÃO!

O inconsciente é uma espera, uma espécie de desvio por uma "outra cena" (pensemos em Halmet, sempre a adiar o acto); estes jovens (muito jovens, cada vez mais jovens) têm pressa e vão a direito. Já não podem (ou não querem) esperar mais, como dizia um deles.

Têm pressa de quê? De gozar. Se não podem gozar aqui e agora, destroem tudo o que assinala o (possível) gozo de outros. Carros, casas, etc. Destroem tudo até...à auto-destruição. Pois a exigência do gozo não tem limites.

O Inconsciente é o domínio da fala e da linguagem; estes jovens actuam à letra, no real. Deixaram de assinar a revista do inconsciente. Deitaram-lhe fogo.

Eles não são inconscientes; são o inconsciente a céu aberto, no real, quando deixou de haver distância entre as palavras e as coisas, quando "incendiar" já não é uma metáfora, uma figura de retórica, mas um acto.

O inconciente é o domínio do sonho. Se por vezes o sonho termina em pesadelo, acordamos dele para...continuarmos a dormir de outra maneira; estes jovens não dormem (e não sonham) para continuarem o pesadelo, no real, noite após noite.

O desejo inconsciente implica dialéctica, mediação; aqui não há dialéctica nem mediação. Como se houvesse um imperativo cada vez mais exigente a sussurar ao ouvido: goza!

Será que o discurso filosófico da racionalidade do ser humano (tem de haver racionalidade nisto!) ou o discurso psicológico da compreensão (devemos compreendê-los, apesar de tudo!) estão à altura do "real do gozo" que aqui se manifesta?

Repostas do real

Supõe-se que uma resposta vem depois da pergunta, mas nada é menos evidente.

Acontece por vezes que só mais tarde, a posteriori, conseguimos formular uma pergunta para uma resposta que já foi "real-mente" dada.

Ela chegou orfã, sem uma imagem que a enquadre, uma palavra que a nomeie, uma expectativa que a acolha. Irrompeu, sem nome, inesperadamente.

Só depois conseguimos balbuciar timidamente a pergunta: o que foi isto? como foi possível ter acontecido? Será que podemos ainda pensar, como Hegel, que todo o real é racional?

Eis algumas das perguntas que eu próprio coloquei ao ver arder, na periferia de Paris e de outras cidades francesas, o fogo do ódio.

7.11.05

Ex-centri-cidades


Aqui há uns anos vi um filme de que não recordo nem o título nem o nome do realizador. Contudo, recordo-me bem que era um filme de um jovem cineasta francês e a acção decorria numa das periferias de Paris. Além disso, os movimentos do filme eram ritmados pelo tique-taque, impressivo, de um relógio-bomba, pronto a explodir a todo o momento, só não sabíamos exactamente como e quando.

Ao ver as imagens dos últimos dias sobre o caos que se instalou nas periferias de Paris e de outras cidades francesas, veio-me à memória essa imagem do filme. Fiquei a pensar: eis um caso onde a realidade imita a ficção! Talvez porque a ficção, neste caso, tenha captado alguma coisa de "real" que a própria "realidade" teimava em escamotear, em não deixar ver.

E se isto, que agora acontece em Paris, fosse apenas a ponta do icebergue? Se não tivesse apenas a ver com uma cidade ou um país em concreto mas com um modelo de civilização? Se isto fosse um "sinal dos tempos", como já alguém disse?

Que é um sinal dos tempos, prova-o não só o acontecimento em si, mas também a cobertura mediática do mesmo. Tudo se transforma em espectáculo, em reality-show.

Ao ler as palavras de um dos "incendiários" (Público, 7 de Novembro, p. 3), fiqui também a pensar se não estaríamos aqui perante uma modalidade de argumentação ("in extremis"), quando todas as outras falham. Dizia ele, um miúdo de 18 anos, que "não há maneira de lhes chamar a atenção. A única forma de comunicar com eles é incendiando". Trata-se, portanto, de mostrar, de dar a ver.

Só que a argumentação pressupõe o "uso" da palavra. A palavra não é a coisa. Aqui trata-se de inflamar coisas e não discursos. Daí que, em vez de uma forma de argumentação, me parece mais a falência da argumentação. Quando se perdeu o esteio da palavra, só a "passagem ao acto" parece funcionar.

À "deflação" da palavra corresponde uma "inflação" da imagem.

Mas há também outra coisa. O crescimento das cidades (como muitos outros crescimentos) faz-se à custa de uma "exclusão interna", do nascimentos de espaços de exclusão dentro da inclusão, de territórios estranhos (onde é difícil entrar) dentro do território, de periferias que vão "descentrando" o centro, até o tornarem num espaço cada vez mais vazio ou, então, numa fortaleza.

Num mundo globalizado (sem um exterior, sem Outro), estamos condenados a encontrar/produzir esse Outro "dentro de nós", no nosso espaço, sob a forma de exclusão.

De vez em quando, a céu aberto, esta exclusão irrompe.



5.11.05

Dicas para estar "in"


Deves estar sempre conectado, ligado, hiperligado. Desligar-se é crime. Liga-te!

A sociedade da transparência em que vives não permite opacidades. Mostra-te!

A sociedade da contínua agitação não permite intermitências. Agita-te!

A sociedade do espectáculo não consente tempos mortos. Vive!

A sociedade do consumo não tolera os que não consomem. Consome!

A sociedade do uniforme não aceita quem se dispa dele. Veste-te!

As sociedades anónimas não permitem que digas o teu nome. Cala-o!

A sociedade das estrelas não suporta a escuridão. Acende-te!

A sociedade de velhos, em que estamos a tornar-nos, não suporta a velhice. Plastifica-te!

A sociedade que muda, que muda sempre e não suporta a mudança, que exige que mudes e que não mudes, que estejas parado e andes ao mesmo tempo, que é contraditória e inconsistente, inconsistente e contraditória, sem lógica nenhuma, exige... o que é que ela exige de ti, na ânsia crescente e desmesurada, sempre a crescer desmesurada-mente...exige que respondas sim.

out!

Desliga-te
Não te mostres
Fica quieto
Morre
Não consumas
Despe-te
Não te cales
Apaga-te
Não respondas sim
Mas antes, como Bartleby, preferiria não


Ou talvez inout
Ou talvez outin
talvez touni
talvez nitou

25.10.05

De um amor que não fosse todo sexual



Nos Cem anos de psicanálise (cf. Pedro Luzes, ISPA, 2ª Edição, 2002.), livro apesar de tudo bastante completo, há pelo menos um nome em falta: Sílvio Lima. Com efeito, se considerarmos os diversos usos da psicanálise, não apenas na sua dimensão terapêutica, “dentro de muros”, por assim dizer, mas também “extra-muros”, no que é tradicionalmente designado, não sem algum equívoco e falta de clareza, como “psicanálise aplicada”, o nome de Sílvio Lima apresenta-se como incontornável. Na verdade, ele é um dos pioneiros, em Portugal, a par de Fernando Pessoa ou de João Gaspar Simões (Cf. Pedro Luzes, op. cit., pp. 197-216; José Martinho, Pessoa e a Psicanálise, Almedina, 2001, pp. 11- 29), na “aplicação” – ou na crítica de uma tal aplicação – da psicanálise a outros fenómenos que não o sintoma (neurótico ou psicótico).

Com a intenção de se candidatar a professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Sílvio Lima elabora, ao longo de seis anos de trabalho, uma dissertação para o concurso subordinada ao tema: O Amor Místico – Noção e valor da experiência religiosa (Obras Completas de Sílvio Lima, Vol. I, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002). Nesta obra, único volume publicado de três inicialmente previstos, o autor interroga-se sobre a natureza do fenómeno religioso em geral e, mais particularmente, sobre uma das suas manifestações: o “amor místico”. Na medida em que Deus, o Verbo, é amor – como se diz nos textos sagrados – poder-se-á identificar ou reduzir o amor religioso ao amor sexual, como pensam alguns? Eis o problema a que esta investigação pretende dar resposta.

As diversas perspectivas sobre o assunto são, ao longo da obra, reduzidas fundamentalmente a duas tendências interpretativas do fenómeno místico-religioso: uma que tende a “sexualizá-lo” (apresentada sob o nome genérico de “teoria erotogénica do misticismo”), outra, “dessexualizá-lo”. Freud e a psicanálise são convocados como fazendo parte da primeira tendência. Derivará o amor religioso do amor sexual por “recalcamento”, “transferência” ou “sublimação”, ou, pelo contrário, terão ambos os fenómenos raízes diferentes? Sílvio Lima acabará por responder cabalmente, no que é a tese nuclear da obra, que “o fenómeno religioso não se reduz ao fenómeno sexual” (op. cit., p. 905).

Daqui se segue uma crítica da “teoria” freudiana, não porque esta seja desprovida de fecundidade em certos aspectos, mas antes pelo seu carácter pretensamente redutor do fenómeno em estudo, bem como do seu exagero interpretativo sobre o mesmo. A posição de Sílvio Lima sobre Freud e a psicanálise é, neste aspecto, ambígua (fazendo lembrar, por exemplo, as posições de Fernando Pessoa ou Wittgenstein): ao mesmo tempo que critica os seus “exageros” ou o carácter monolítico das suas interpretações, perante uma realidade viva e complexa que não se deixa reduzir facilmente a fórmulas únicas e gerais, pensa igualmente que ela pode lançar novas e inesperadas luzes sobre alguns aspectos do fenómeno em questão. Aliás, como ele próprio diz, “uma coisa é Freud, outra, o freudismo” (p. 722), querendo com isso sublinhar que os “exageros interpretativos” se devem mais aos seus seguidores do que ao mestre de Viena, ele próprio.

Contra esta tendência de encerrar todo o processo numa “fórmula geral única” (pansexualismo) – mesmo se temos a sensação de que Sílvio Lima não se libertou por completo da associação vulgar, pré-freudiana, entre sexualidade e genitalidade –, o autor propõe que nem todo o fenómeno religioso, e místico em particular, é sexual, sendo este apenas “um pequeno distrito no vasto império do sensual” (p. 745), e, da mesma forma, “se todo o prazer sexual é prazer, nem todo o prazer é prazer sexual.” (p. 581).

Não deixa de ser interessante que, algumas décadas mais tarde (no início dos anos setenta) Lacan, interessando-se pelo fenómeno místico de uma forma bem diversa da de Freud, venha dizer igualmente, embora segundo os seus próprios termos, que o gozo (místico) não é todo sexual (cf. Séminaire Encore, 1972-1973). Eis o que dá, retroactivamente, um novo interesse a esta obra dos primórdios do século passado.

22.10.05

De um país que não fosse o da aparência


Sem ser propriamente catastrofista ou optimista, como o autor sublinha nas “notas finais”, o mais recente livro de José Gil (Portugal, hoje - o Medo de Existir, Relógio d'Água) propondo-se abordar um tema algo “indefinido” e transversal a diversas disciplinas, é de uma extrema lucidez acerca do nosso país. Nessa medida, o tom que ele imprime à forma como conclui um dos capítulos, dizendo abertamente que “Portugal arrisca-se a desaparecer” (cf pp. 71-73), mais do que alarmista, soa lógico e consequente com todo o resto da sua argumentação.

Na base desta argumentação, há uma tese essencial: Portugal é o país da “não-inscrição”. Isto não significa que Portugal, nestes últimos anos, não tenha feito um esforço para se “inscrever”, nomeadamente na Europa; mas tal “inscrição” é apenas imaginária, aparente, e aquilo de que se trata aqui é circunscrever “algo” que não seja, por assim dizer, do registo da aparência. Algo “real”, que “marque” o real e o transforme produtivamente. Pelo contrário, segundo o autor, em Portugal nada tem existência real, nada se inscreve, nada acontece. Não obstante, cultiva-se a imagem (o narcisismo), sobretudo para fora, para os outros, os estrangeiros; fala-se muito, mas é uma fala “esvaziada”; escreve-se e legisla-se sobre quase tudo, talvez porque nada se “inscreve” realmente. Há, assim, uma espécie de “nevoeiro” ou “sombra branca” (em grande medida inconscientes) a cegar o desejo e a tolher a acção.

Nesta incursão pelo “nevoeiro” que nos tolda e paralisa, e apesar da sugestão “mítica” do termo, não se trata aqui de uma nova “psicanálise mítica” (Eduardo Lourenço) sobre Portugal, ainda que, para o bem ou para o mal, a psicanálise seja uma das referências constantes do autor ao longo deste “ensaio”. Sobretudo alguns nomes: Freud, Ferenczi, Nicolas Abraham, Maria Torok, e algumas noções: “inconsciente”, “trauma psíquico”, “cripta”, etc. O que mostra, de algum modo, a produtividade dos conceitos psicanalíticos mesmo para “além dos muros” da psicanálise propriamente dita.

Mas o que é uma “inscrição”? O próprio autor faz a pergunta (p. 48) e dá-nos um conjunto de elementos que nos ajudam a situar a resposta. Antes de mais, há que fazer a diferença entre as “boas” e as “más” inscrições”, ou seja, as que aumentam o poder de vida e as que o destroem. Depois, convém fazer a diferença entre três registos (real, imaginário e simbólico) segundo os quais podemos enquadrar a questão. De acordo com o autor, não há inscrição imaginária e a inscrição simbólica não tem um poder transformador, pois não faz mais do que continuar a realidade já construída. Sendo assim, a verdadeira ou “boa” inscrição é, na sua essência, um acontecimento “real”.

É aqui, talvez, em meu entender, que a argumentação de José Gil é mais frágil. Na verdade, se, por um lado, ele diz que a inscrição simbólica (numa clara, se bem que não explícita, alusão à psicanálise de orientação lacaniana) “não faz mais do que continuar a realidade já construída” (pp. 48-49), por outro, não deixa de reconhecer e sublinhar que a fala representa uma “condição essencial da inscrição” (p. 54). Segundo o exemplo que ele próprio dá, uma mãe pode investir toda a sua ternura no acto de amamentar um bebé, mas para que esse acto se inscreva, tanto nela como no bebé, é preciso que ela lhe fale enquanto o amamenta. Como se vê pelo exemplo, a fala, aqui, não é mero veículo de uma inscrição prévia (digamos, real), mas a “condição” para que essa inscrição (real) se torne possível e aconteça efectivamente. Percebendo-se, embora, que o autor queira insistir na natureza “real” do fenómeno (e não “aparente”, segundo um possível entendimento do “imaginário” e do “simbólico”), também seria importante esclarecer, para que não fique a sensação de um certo “nevoeiro conceptual”, que o “real” (pelo menos em Lacan) não se confunde com a “realidade”, tal como o “imaginário” não se confunde com a “imagem” e o “simbólico”, se bem que a torne possível, não se confunde com o “esvaziamento da palavra”, de que fala o autor (p. 57).

Prosseguindo: o que se inscreve (realmente) é fonte de potência, de vida, desejo e transformação “real”; o que não se inscreve ou inscreve “mal”, repete-se, por exemplo sob a forma de medo; um medo como efeito da não inscrição, mas também como causa, como “estratégia para não inscrever” (p. 78). É nessa medida que ele, perdido o objecto que o causa, porque não inscrito, se torna difuso, sem objecto (apesar da definição de Freud, que lhe dava um objecto, diferentemente da angústia) e se transforma, segundo a expressão do autor, que dá subtítulo a este ensaio, num “medo de existir”.

Como causa próxima deste “medo”, podemos apontar o “salazarismo” (de resto, não é a primeira vez que o autor o revisita), mas a novidade deste livro está em supor que as causas podem vir de mais longe (cf. p. 134), de uma espécie de “trauma inaugural”, reactivado através da história, de que o “salazarismo” seria (apenas) um dos pontos culminantes. Esse trauma inaugural, segundo o autor, é o próprio “trauma da não-inscrição” ou a “não-inscrição que se torna trauma”. Isto quer dizer, finalmente, que não é este ou aquele acontecimento em particular que não se inscrevem, mas a própria existência, a não inscrição da existência como tal.

Resta a pergunta: porque é que em nós, talvez mais do que nos outros (segundo o tom geral do livro) se cristalizou este “medo de existir”? Uma resposta, não toda, é porque houve, na nossa história, acontecimentos, contingências ou vicissitudes, de que o salazarismo é o exemplo mais recente e ainda vivo, se bem que imaginária, simbólica e realmente “mal inscrito”.

16.10.05

A intradução automática

Não consigo deixar de rir - o que afinal, dizem alguns, é o melhor remédio - quando tento usar um desses programas que ostentam o pomposo nome de "tradutor automático".

Quanto menos "clara" e "objectiva" é a construção de uma frase, do ponto de vista "gramatical", mais dá para rir com o resultado.

Talvez funcione bem numa linguagem que ninguém fale, em que não haja deslize, escorregadela entre o significante e o significado, equívoco...

Só que essa é a "língua" dos mortos e não dos vivos, pois estes não páram de se equivocar ou trair, dizendo sempre um pouco mais ou um pouco menos do que querem dizer.

Uma "linguagem" que fosse completamente despida de equívoco seria integralmente "traduzível", mas não diria nada de verdadeiramente relevante no que ao humano concerne.

24.9.05


Robert Longo, Sem título ("Os Homens nas Cidades"), 1981-7

O lado sombrio das luzes

Há cada vez mais "livros negros" sobre isto e aquilo.

Estando inscrito no "programa das luzes" que a luz da razão deve eliminar progressivamente as trevas, um "livro negro" é o que pretende denunciar o que permanece de "obscuro" num domínio supostamente já "iluminado".

Ao chamar "Livro Negro da Psicanálise" (Éditions Les Arènes) ao mais recente ataque à "invenção de Freud", os autores (Mikkel Borch-Jacobsen et Didier Pleux, entre outros) não conseguem ocultar a clareza do seu propósito mais obscuro: trata-se de denunciar, de desmascarar Freud e os seus seguidores, como uma imensa turba de charlatães e uma "falsa ciência"; daí que se trate, para eles, segundo a fachada do espírito crítico que ostentam, de "aller sans Freud".

Mas "avançar sem Freud" para onde e em nome de quê? Se a psicanálise é uma "falsa ciência" (uma "impostura intelectual", segundo o termo que outros puseram na moda) e uma prática "fraudulenta", então deve opor-se-lhe a "verdadeira ciência" e a a prática adequada.

E quais são elas, segundo os autores? As "terapias cognitivo-comportamentais".

Por aqui se percebe que não é em nome de uma qualquer neutralidade científica que a psicanálise é criticada, mas antes pelo facto de que ela é o último bastião de resistência antes do triunfo definitivo destas "terapias" que, aliadas à farmacologia, pretendem "eliminar o sintoma" em pouco tempo e de forma eficaz graças à "exclusão" do sujeito (falado e falante).

Porém, cada vez que é atacada - como sublinhava Jacques-Alain Miller numa entrevista ao "Le Point"(22/09/05, p. 80) - a psicanálise demonstra que está viva, tão viva que (ainda) incomoda muita gente.

É evidente que ela pode desaparecer. Nada está ganho definitivamente, de uma vez por todas; a psicanálise não é excepção. Ela depende apenas do "desejo decidido" dos que a praticam (analistas), dos que demandam uma análise (analisandos) ou dos que, sem ser analistas ou estar presentemente em análise, a respeitam enquanto "marca" inolvidável na civilização.

José Gil levantava a questão perturbadora, no seu último livro (Portugal, hoje, O medo de existir), se um país como Portugal, com mais de oito séculos de história, não poderá pura e simplesmente desaparecer um dia destes. A longevidade não garante uma existência. A psicanálise é bem mais nova que Portugal. Poderá ela desaparecer como prática, como teoria e como fenómeno civilizacional?

Agustina Bessa-Luís dizia, numa entrevista recente na televisão, com a frontalidade que lhe é habitual, que a literatura já tem uns bons séculos e pode bem ser, por isso, que esteja a chegar ao fim. Como Hegel dizia da arte, "coisa do passado". Ou Nietzsche de Deus. O que nos resta se tudo isto desaparecer ( a literatura, a arte, a psicanálise, etc.) senão o triunfo definitivo da ciência (transformada em "cientismo", porque sem a "guerra fria" da oposição, do Outro), do "comportamentalismo" (reduzindo a complexidade do sujeito e da condição humana a fenómenos "estatísticos": observáveis, avaliáveis e quantificáveis) e da farmacologia (tratando todos os sintomas, físicos e psíquicos, com pequenas pílulas mágicas).

Italo Calvino, sem dar atenção aos que falavam já da "morte da literatura", chamou a um ensaio: "Seis propostas para o próximo milénio". Propostas que relevam de um "desejo decidido" de continuar com a literatura por muitos e muitos anos porque vale a pena continuar. Se isso desaparecer, o mundo não fica mais rico, mas mais pobre.

Na "era da ciência", os jovens reuniram-se em Colónia em torno de alguém (Bento XVI) que lhes falava não a linguagem das "quantidades", mas antes das "qualidades ético-morais"; anacronia que arrasta multidões desencantadas com a frieza do mundo técnico-científico. Não foi "Deus" que morreu, afinal, como pretendia Nietzsche...

O que retorna, com uma força nova, na religião (a tal ponto que há já vários livros e revistas consagrados ao fenómeno) é também o "sujeito" excluído da ciência e dos seus anexos.

É deste "sujeito" (sempre atópico e rebelde à "fixação") que se ocupa, desde Freud, isso a que se chama psicanálise.

1.9.05

O incêndio da cultura

Depois do regresso das férias grandes, televisões e rádios alimentam-se ainda do que sobejou dos incêndios.

No debate do "Prós e Contras" (RTP1), chegou-se a esta brilhante conclusão: "Podemos viver sem a cultura, sem a biologia é que não".

Não basta que os incêndios nos tenham destruído já grande parte do património "biológico", agora querem também destruir-nos o que resta do património cultural.

Nada do que é humano é estranho à cultura!

Saber isto é essencial para compreender que, nos últimos anos, não tem ardido apenas a floresta portuguesa, mas também - e sobretudo - uma certa "cultura" da mesma.

O problema é ainda e sempre cultural.