6.1.07

Variação interessante de uma velha questão

Ontem, por um mero acaso, feliz, liguei a televisão e ouvi, da boca de uma mulher, creio que no "genérico" de apresentação de um qualquer programa da Sic Mulher, talvez o Eles e Elas, a frase que reproduzo a seguir. Não cheguei a saber se a mesma era da lavra da mulher que a proferiu ou a reprodução de uma frase que alguém (homem? mulher?) terá dito. De qualquer modo, achei a variação interessante.

Freud, até ao fim da vida andou, por assim dizer, atormentado com uma questão: o que quer a mulher?

Que a questão não seja completamente ociosa, prova-o o facto de que ela continua a incomodar as próprias mulheres, como demonstra o título que Susie Orbach e Luise Eichenbaum deram, em 1983, a um livro sobre esta matéria: What Do Women Want? (traduzido para portugês em 2004, pela Sinais de Fogo).

A frase que eu ouvi na televisão dizia: O que é que as mulheres querem... que os homens pensem... que elas querem.

A pontuação (reticências) é minha.

3.1.07

Mais duas pérolas

A relação entre a psicanálise e a filosofia esteve sempre longe de ser fácil ou evidente. O encontro (possível) entre as duas traduziu-se, a maior parte do tempo, num desencontro ou, até, algumas vezes, num mau encontro.

Do lado da Filosofia, por exemplo, após um breve período de algum "namoro", fascínio ou, nalguns, encantamento em relação à coisa psicanalítica, foi o silêncio quase absoluto. Salvam-se, aqui e além, breves - e geralmente sarcásticas - anotações.

Do lado da psicanálise, a grande preocupação parece ter sido, quase sempre, a de demarcar-se da filosofia: aquilo que nós, os psicanalistas, fazemos, não é uma visão do mundo, nem uma filosofia, nem nada que se pareça.

Tudo isto é justo. Há que pôr os pontos nos is e marcar as diferenças.

Contudo, como sublinhava há algum tempo uma psicanalista, Marie-Hélène Brousse, num artigo dedicado precisamente a um filósofo, Descartes, importa talvez rever a questão da psicanálise e da filosofia, na justa medida em que se considere que a psicanálise não é "toda" terapêutica e que uma experiência analítica levada até ao seu termo diz mais respeito à ética ("Variations sur le cogito", in Des philosophes à l'envers. Horizon. Nº Hors-Série. Janeiro 2005).

Slavoj Zizek, simultaneamente filósofo e psicanalista, tem dado corpo, à sua maneira - e de forma singular - a esta "revisão".

É por esta e outras razões que é de saudar a publicação, pela Relógio de Água, de mais dois livros seus.









22.12.06

Dar o que não se tem

Todos os Natais sou invadido por uma certa nostalgia de um tempo - mítico, talvez - em que o desejo de dar ainda não era inteiramente sufocado pelo ter que dar (isto é, comprar) algo para os entes queridos, amigos e conhecidos.

Era um tempo - mítico, talvez - em que ninguém tinha quase nada para dar e toda a gente dava, por isso, até o que não tinha.

A carência (ao nível da necessidade) não mata forçosamente o desejo de dar, podendo até reforçá-lo.

Dar o que não se tem - como dizia Lacan - é amor.

Outros dirão: É Natal.

14.12.06

No princípio era o amor

É com este título que Lacan inicia o seu seminário de 1960-1961 dedicado à Transferência. Aí discute, entre outras, a conhecida fórmula do Evangelho de S. João segundo a qual no príncípio era o Verbo. A ideia é que o Verbo é essencialmente amor. Quando alguém se põe a falar, mais do que uma informação (sobre o mundo ou a realidade) é o amor que se vai inter-dizendo por entre as linhas.

Na experiência analítica, o amor tem o nome de "transferência", um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, segundo Lacan. O seu nascimento e o seu fim marcam dois momentos cruciais de uma cura analítica.

O próximo congresso da New Lacanian School/Nouvelle École Lacanienne, a realizar em Atenas a 19 e 20 de Maio de 2007, é subordinado ao tema "Nascimentos da Transferência" (Births of transference/Naissances du transfert), inscrevendo, desde logo, no título a pluralidade de abordagens que o tema, hoje, permite.

________

"Poderes da Transferência" é o título do seminário do Centro de Estudos de Psicanálise (CEP) e da Antena do campo Freudiano (ACF) que se realiza todas as segundas feiras na sala A12 da Universidade Lusófona (Campo Grande) e que é dedicado, como não podia deixar de ser, à questão do amor e às suas diversas facetas, tanto dentro como fora da psicanálise.

Como é natural, Platão não poderia faltar ao banquete!

13.12.06

Coisas de merda


No prefácio à edição francesa do Elogio da Intolerância (Lisboa: Relógio D'Água, 2006), Slavoj Zizek mostra como a "ideologia" - supostamente ultrapassada ou caída em desuso - está presente até nas coisas mais ordinárias (ou íntimas e privadas) do quotidiano.

Para ilustrar a tese, recorre a três exemplos "típicos" de casas de banho: a alemã (tradicional), a francesa e a americana. Na casa de banho alemã tradicional, o buraco onde o cocó desaparece depois de se puxar o autoclismo é lateral, de tal modo que ele começa por ser exibido aos nossos olhos para melhor ser inspeccionado com vista à detecção de um qualquer indício de má saúde; no modelo francês, o buraco fica bem ao meio e em baixo, de forma a que a merda desapareça o mais rapidamente possível; por último, a casa de banho amercicana, apresenta uma espécie de síntese, de mediação, entre as duas anteriores: a sanita está cheia de água, de tal maneira que o cocó flutua, bem visível, à superfície, sem que por isso deva ser examinado.

Segundo Zizek, podemos distinguir claramente em cada um destes modelos de casa de banho uma certa concepção ideológica da maneira como o sujeito deverá relacionar-se com o desagradável excremento que provém do interior do seu corpo.

Prosseguindo com o exemplo, poderíamos estabelecer um paralelismo com o que se passa nas nossas casas de banho públicas (onde se torna público o mais privado), em particular no que diz respeito às inscrições que aí proliferam.

Uma "história da vida privada" teria muito a aprender com uma visita regular às casas de banho públicas: não só em relação à forma como o sujeito vai lidando "simbólica" e "imaginariamente" com esse pedaço de "real" que cai do seu corpo, mas também, e principalmente, em relação à inscrição da(s) sexualidade(s), do próprio ou do(s) outro(s), segundo um maior ou menor (mais ou menos explícito) des - embaraço.

Os fantasmas de uma geração ou os sintomas de uma época também se (a) sentam aí.

5.12.06

Sem garantia


Há frases que são verdadeiras "concepções do mundo". Frases banais, do quotidiano.

Um exemplo é o dito publicitário que corre nos media, desde há algum tempo: "Hoje em dia, ninguém empresta sem uma garantia."

Não deixa de ser paradoxal - mas profundamente elucidativa - esta exigência de garantia na época do Outro que já não (em) presta garantia.

Se passamos a exigir uma garantia para tudo é porque tudo ficou sem garantia. Inclusive o Outro.

É a lógica dos "seguros": proliferam onde reina a insegurança (real ou imaginária, pouco importa).

29.11.06

A tentação do nada

O "nada" pode ser muitas coisas. Basta escrever, por exemplo, num qualquer motor de busca a palavra "nada", que logo vêm à rede uma série de coisas.

O número de Novembro de 2006 (Hors-série) da prestigiada revista Magazine Littéraire, é inteiramente dedicado ao tema do "nihilismo" (do latim, "nihil") e tem como subtítulo: "a tentação do nada" (la tentation du néant). É fácil verificar, pela quantidade (e qualidade) dos artigos consagrados ao "nihil-ismo", que o "nada" está longe de se reduzir a nada.

Num outro domínio, também o último número da revista "Actual", do Jornal Expresso (25 de Novembro de 2006), consagrava duas páginas (24-25) a uma estranha "doença" (anorexia) onde o "nada" tem a sua importância. Pela forma como se obstinam na manutenção desse "nada", faz supor que há aí "alguma coisa" mais importante e fundamental (a conseguir ou a manter) do que a (não) satisfação da necessidade. Lacan costumava dizer, por isso, que a anoréctica come nada.

Mas, para além dos aspectos clínico (como tratar o desejo e o gozo em presença) e ético (são postasem causa todas considerações "utilitaristas" do bem-estar), a anorexia coloca-nos ainda um interessante problema, digamos, "cultural". Na verdade, ao mesmo tempo que a cultura parece estar a sofrer um efeito de feminização cada vez mais acentuado (não só ao nível dos comportamentos, mas também dos discursos), a anoréctica recusa precisamente a feminização do corpo. Todos os traços (seios, ancas, nádegas...) e ocorrências (menstruação) que lembram que a menina está a devir mulher são progressivamente rasurados.

Num outro campo cultural, os dos criadores de moda, assiste-se também a uma certa rasura, desta vez em relação aos traços distintivos dos sexos, tornado-os cada mais indistintos, homogéneos, a-sexuados.

Não haverá uma certa ligação (não digo no sentido em que um seria o culpado do outro, como muitas vezes é sugerido) entre estes dois fenómenos: um deles recusando a diferença sexual e o outro a feminilidade?

Talvez seja preciso voltar a ler Freud!

24.11.06

Uma certa psicanálise...


"O número 3/4 de Afreudite, já disponível em http://afreudite.ulusofona.pt/, apresenta o trabalho de investigação efectuado, entre 2003 e 2006, pela Linha de Acção Psicanálise da Unidade de Estudo e Investigação em Ciência Tecnologia e Sociedade, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Os elementos desta Linha de Acção, quase todos membros da Antena do Campo Freudiano, desenvolveram as suas actividades de investigação em três direcções contemplando avaliações quantitativas e qualitativas: 1) a elaboração e aplicação de um Questionário sócio-demográfico para estudo da representação social da Psicanálise em Portugal; 2) uma recolha históricobibliográfica das edições portuguesas de textos de Psicanálise e afins; 3) e a recensão crítica de algumas dessas obras. A natureza empírica do referido inquérito levou a um debate mais vasto sobre a crença na objectividade do método. Através da discussão do Questionário é uma certa «Psicanálise» que é também colocada em questão. O restante deste número da Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada é consagrado ao que de melhor se disse nas Jornadas de 2006 do Centro de Estudos de Psicanálise. Para além do tema geral, «A Paternidade em Crise», o leitor poderá igualmente inteirar-se de uma interpretação inédita da obra de José Saramago. Esta apresentação da investigação «lacaniana» em Portugal termina com o relatório do perito internacional que se deslocou a Lisboa para avaliar o trabalho da Linha de Acção e do Centro de Estudos de Psicanálise, o Vice-Presidente da Universidade de Rennes II, Professor Doutor Alain Abelhauser"

22.11.06

Mal-dita cocaína


Passados que são 150 anos sobre o seu nascimento, um pouco por toda a parte - e também em Portugal - o nome do criador da psicanálise, Sigmund Freud, continua a sucitar interesse, se bem que nem sempre pelas melhores razões. Um dos casos mais recentes é o da revista VIP (nº 488, de 22 a 28/11/2006).


É "sintomático" que a história descambe facilmente para a "anedota", o facto curioso, a piada (de bom ou mau gosto), o mito. Seria Freud um tarado sexual? Um viciado em cocaína?... Eis as perguntas que são colocadas, de forma recorrente e quase exclusiva, sobre o fundador da psicanálise. Tudo o mais é relegado para segundo ou terceiro plano, quando não é simplesmente esquecido.


Compreende-se, de alguma forma, que assim seja, na época de mediatização generalizada em que vivemos. Que importa às audiências, às massas, ao leitor anónimo a verdade (mesmo se Freud baseou a psicanálise no "amor da verdade") ou o real da coisa em questão. O que importa é que os mitos continuem a circular de mão em mão, de boca em boca, como moeda gasta, como diria Mallarmé.


Mas é por isso também que aqueles que são (raramente) chamados a dizer de sua justiça, possam esclarecer os equívocos, recolocando no seu devido lugar a página esquecida (ou a esquecer), sem a qual a história (da psicanálise) fica inevitável e irremediavelmente deturpada. Foi o caso, neste número da revista VIP, de José Martinho, representante em Portugal da Associação Mundial de Psicanálise, catedrático de Psicologia da Universidade Lusófona e presidente da Antena do Campo Freudiano.


Já agora: Freud era VIP (Very important person)? Sem dúvida, caso contrário, como teria sobrevivido 150 anos?

17.11.06

Um acontecimento






















Um acontecimento não é só um facto ou uma ocorrência, um acaso ou uma eventualidade que se realiza de modo mais ou menos inesperado; é também algo ou alguém digno de nota, extra-ordinário, que rema (ou rima?) contra a maré dos "acontecimentos".

É um facto que Slavoj ZizeK é psicanalista e filósofo (conjugação improvável, segundo muitos). Ocorreu igualmente que ele se tornou, nos últimos anos, uma "estrela" em vários firmamentos. É, enfim, verdade que o seu pensamento é digno de nota, em particular na forma como, agarrando o fio de Ariadne deixado por Lacan, Hegel e Marx, entre outros, ele tem vindo a fazer o seu próprio caminho de forma singular.

O que é inesperado - até certo ponto - é que ele esteja a ser traduzido para português!

A culpada do feito é a Relógio de Água, para bem dos nossos pecados.

Mesmo que a igreja Católica venha dizendo às almas que já não há Inferno (era uma fantasia), Slavoj Zizek, diz-nos, com Lacan, que há real (é o nosso sintoma) com que temos de haver-nos; por isso, Bem-vindos ao deserto do real!

Mesmo que o discurso reinante diga que vivemos num universo pós-ideológico, o multiculturalismo despolitizado é, segundo Zizek, a nova ideologia do capitalismo global; por isso, é necessária uma certa dose de intolerância (daí o elogio da mesma) para que se possa elaborar uma crítica da actual ordem das coisas.

Mesmo que outros digam que o sujeito e a subjectividade são temas defuntos, Slavoj Zizek apela a uma subjectividade por vir, reinventada, que tenha em conta as relações com o real.

É por estas e por outras que vale a pena de-gustar o acontecimento!

26.7.06

A bulimia da lei


Se a recta é o caminho mais curto entre dois pontos, a burocracia é o caminho mais longo.

Que o digam as personagens de Kafka (o autor do "Processo", do "Castelo"...) que não cessam de não chegar ao destino.

Parece que nós, portugueses, somos essencialmente "animais burocráticos": legislamos sobre tudo. Não damos um passo (qualquer dia quase não respiramos) se não está na lei.

Aprecebendo-se disso - e muito bem - o governo decidiu criar há algum templo um plano chamado "simplex" para combater a burocracia.

Mas tal como o sol quando nasce não é para todos, também o "simplex" é só para alguns. Um exemplo é a trapalhada da educação onde se tem assistido a um furor legislativo e contra-legislativo até ao vómito. Por estas bandas, o que parece continuar a reinar é o "complex".

Quando a lei tudo pretende abarcar, acaba por tolher a acção. O excesso de uma é o defeito da outra. A vitória da primeira é a derrota da segunda.

Alguém já nos chamou "chineses da Europa". Descontando, claro está, o fado, o futebol e Fátima. Isso, eles não têm.

Quanto mais domina o "desejo da lei" mais sucumbe a "lei do desejo".

Um exemplo é o que vem consagrado na nova proposta do Estatuto da Carreira Docente. Se esta vingar - e com a famigerada "teimosia" e persistência da sra. ministra e seus pares assim será - os professores não vão fazer mais nada do que auto e hetero-avaliar-se.

Quando tudo se avalia, pouco se produz. A maior parte das coisas que fizeram um dia "acontecimento", se acaso tivessem sido avaliadas segundo as grelhas vigentes, teriam porventura "chumbado".

Em Portugal tudo se legisla porque "nada acontece, nada se inscreve" (José Gil).

Mas é preciso não esquecer - como dizia Lacan nos últimos anos do seu ensino - que "o real é sem lei".