17.11.07

Sicko-logica-mente

Num certo sentido, grande parte do cinema que se faz actualmente deixou de intervir na realidade, rodopiando cada vez mais sobre si próprio, a sua história e os seus maneirismos formais. No entanto, há um conjunto de realizadores que teima em "rimar contra a maré" (retomo aqui a expressão feliz de Miguel Mota).

É o caso, por exemplo, do polémico "documentarista" americano Michael Moore. Decididamente interventivo (é disso prova não apenas o filme-documentário agora em exibição, Sicko, como igualmente o canal que o mesmo criou no Youtube, em que o público é convidado a partilhar as suas histórias sobre os "maus encontros" com o sistema de saúde americano), os seus "documentários" são um verdadeiro acto político, no sentido genuíno do termo. Na verdade, ele "interpreta" de tal modo o cinema e o documentário, que não sabemos verdadeiramente se estamos perante documentários elevados à DIGNIDADE do cinema ou este elevado à DIGNIDADE do documentário.

Tendo como pano de fundo o sistema de saúde americano, em particular as más experiências de uma série infindável de concidadãos com as poderosas e lucrativas seguradoras, ele tenta mostrar, à sua maneira, que não há clínica justa do sujeito sem uma ajustada clínica da civilização. Neste caso, da "civilização" americana. E, já agora, porque a "aldeia global" tende a "americanizar-se" a todo o gás, à "civilização" tout court.

No país do "sonho americano", o que este filme-documentário mostra é o seu reverso: um pesadelo. Nessa medida, ele dá que pensar. Já seria motivo suficiente, mesmo que não houvesse outros, para ir dar uma olhadela, não fosse a grande "paixão da ignorância" que vai por aí.

Um aparte:Quando assisti a este documentário fabuloso , havia apenas sete pessoa na sala. Repito: sete. Era Sexta-feira à noite. O cinema tinha nome: chamava-se Nimas. Já tive oportunidade de assistir, neste mesmo cinema, a verdadeiras obras primas. Por este andar - ou por esta inércia - ainda vamos acabar todos a gramar, sexta-à-noite, os "Morangos com Acúçar". Valha-nos Deus!)

15.11.07

Dia internacional...

Em dois mil e dois a Unesco decidiu dedicar um dia internacional à Filosofia. Em Portugal, este dia celebra-se hoje, 15 de Novembro.

Não consigo deixar de pensar que a existência de um Dia Internacional da Filosofia (tal como o dia da água ou da árvore) significa o reconhecimento "oficial", de uma forma mais ou menos envergonhada, de que aquela perdeu importância ou está em risco.

Não existem dias internacionais (ou nacionais) para aquilo que conserva pujança vital. Os gregos, por exemplo, tinham mais que fazer do que celebrar o dia internacional da filosofia: ocupavam-se, por exemplo, a filosofar.

12.11.07

Pulsão de morte

Perante um massacre como o ocorrido há poucos dias numa escola da Finlândia, um país considerado exemplar em matéria de ensino e educação por muito boa gente, a reacção imediata, após o choque inicial, é perguntar-se porquê. Perguntar-se porquê é buscar compreender, procurar razões que justifiquem o acto cometido pelo jovem de dezoito anos que, num gesto tresloucado, matou uma série de colegas, entre outros agentes educativos. O problema é que, neste caso, o aluno em questão parecia bem integrado, normal, com uma inteligência acima da média, com uma família...

Haverá, sem dúvida, outras razões, pois, a acreditar nos velhos pensadores, nada é sem razão. É certo que poderá haver razões de natureza familiar, social, escolar, etc., mas o que faz estremecer, desde logo, é que por mais razões que haja ou possa haver para explicar este acto, elas serão sempre insuficientes, ainda que necessárias, para dar conta do que há nele de profundamente desmedido, excessivo, desproporcionado.

Nem todo o real deste acto é racional. Ou então, é a própria racionalidade da razão (parece que todo este acto foi meticulosamente preparado, calculado e divulgado) que se revela aqui irracional. Uma razão fria, como diria Damásio; sem com-paixão ou receio das consequências (como diria, curiosamente, o próprio Kant).

Como pode combater-se alguém que está disposto não só a matar como a morrer? Vale a pena reler "O Mal-Estar na Civilização", de Freud, para ver por que era ele tão pessimista sobre a natureza humana... Na verdade, por mais "inumano" que ele nos pareça, este acto é filho do humano.

4.11.07

O corpo e o objecto

Desde há vários anos, a Antena do Campo Freudiano, através do seu Centro de Estudos de Psicanálise, tem prosseguido uma investigação em torno de alguns dos conceitos fundamentais que Freud e Lacan puseram em circulação. A base das operações é um Seminário animado por José Martinho e que este ano se realiza na Biblioteca Victor de Sá, Universidade Lusófona, sala 2.3, e é subordinado ao tema: "O Corpo e o Objecto na Clínica Psicanalítica". Procura-se, desta forma, uma consonância com o trabalho proposto e realizado ao nível quer da Associação Mundial de Psicanálise, quer da New Lacanian School/Nouvelle École Lacanienne.

No "Mercador De Veneza", de Shakespeare, é celebrado um estranho contrato entre Shylock, um judeu, e António, um importante mercador de Veneza. Para ajudar o seu amigo, Bassânio, a conquistar o coração da bela e rica Pórcia, ele pede emprestado a Shylock três mil ducados. Este acaba por aceder ao pedido sob a estrita condição de que António lhe pague a dívida no prazo de três meses; caso contrário, terá direito a cortar "uma libra de carne" junto ao coração daquele. Eis um estranho objecto que se destaca do corpo e, já agora, das leis do mercado: para que é que isso serve a Shylock, o judeu?

Quando Marcel Duchamp descobriu que um objecto qualquer da indústria humana (quer seja um pá, uma roda de bicicleta ou um simples urinol) pode ser elevado à dignidade de Objecto artístico, mostrou, por exemplo, que mesmo quando uma coisa já não serve para nada (daquilo para que foi criada), ela continua, apesar de tudo, a ter uma função. Qual é a função, cultural e artística, destes estranhos objectos cada vez mais disseminados?

Para um fetichista, por exemplo (veja-se o caso referido por Freud num texto dedicado ao tema), a presença ou ausência de um simples "brilho sobre o nariz" pode ser razão necessária e suficiente para atear ou extinguir todo e qualquer desejo sexual.

Num outro domínio, ao nível dos novos sintomas que não cessam de aumentar, o "nada" que a anoréctica se obstina em (não) comer, revela que o objecto e o modo de satisfação que aí estão em causa não dizem respeito à necessidade natural, mas a outra coisa, quer esta se reporte ao amor (na sua exigência incondicional), ao desejo (que é sempre desejo de outra coisa) ou ao gozo (enquanto este põe em causa o princípio de prazer).

Também o esquizofrénico, por exemplo, que ouve realmente vozes (que mais ninguém ouve), mostra, à sua maneira, que o objecto de que se trata não é o objecto natural, da percepção..., mas aquilo a que Lacan vai chamar objecto a.

São apenas alguns exemplos deste estranho objecto que Freud - e após ele Lacan - deram um relevo especial. É em torno dele que irão prosseguir as investigações do seminário ao longo deste ano.

1.11.07

O cão vadio (parte II)


Não gosto de repetir os mesmo temas, ainda que, como diria Deleuze, haja, em toda a repetição genuína, uma diferença. Volto, por isso, ao tema do "cão vadio" que morreu de fome e sede numa exposição de Guillermo Vargas.

A pergunta que eu gostaria de colocar é a seguinte: por que causou este acontecimento tanto escândalo, gerou tanta polémica e levou a tamanha reacção? É verdade que é um acto (e gostava de realçar esta dimensão do acto) aparentemente bárbaro, de um "cinismo" ou provocação a rondar o mau gosto. Além disso, a minha primeira reacção foi igual à de toda a gente. Mas é necessário, por vezes, um segundo tempo para colocar o primeiro no devido lugar.

Na verdade, todos os dias morrem no mundo, nas ruas, à vista desarmada inúmeros cães vadios (bastaria, como diz o meu amigo Fernando Borges de Moraes, "recortar" isso com a sensibilidade do olhar). De igual modo, todos os dias morrem no mundo inúmeras pessoas como cães vadios. Acontece que isto já faz parte da realidade a que estamos habituados. E o hábito é uma espécie de carapaça que encobre o "real" que habita a "realidade".

Quando, de repente, alguém se lembra de expor, num lugar determinado, levando até às últimas e trágicas consequências, por meio de um acto discutível (mas qual é o verdadeiro acto que não é discutível?) algo que, na verdade, já está "exposto"...toda a gente se escandaliza.

E não é motivo para menos, visto que a artista descobre, isto é, põe a nu, o que gostaríamos de continuar a encobrir.

Eis onde a petição que circula pela Internet tem uma função sedativa, tranquilizante: ao assinar, podemos ir à nossa vida, de todos os dias, e continuar a dormir descansados. É como aquelas pessoas que, em certas organizações, se "mortificam" com um cilício durante algum tempo, limitado, para não andarem constantemente mortificadas. Ou como aquelas que preferem ter medo (disto ou daquilo) para não andarem permanentemente angustiadas. Ou, enfim, como aquelas que preferem esfolar o joelho (em Fátima, por exemplo) a ter de esfolar a alma...

Afinal de contas, dá jeito e não é mal pensado!

27.10.07

O cão vadio

Outrora, uma coisa era a arte, outra coisa, a vida; mesmo se a arte se propunha "imitar" a vida.

Hoje, e desde há algum tempo, a arte confunde-se cada vez mais com a vida, de tal forma que esta, em certos casos, parece (querer) imitar a própria arte. Na medida em que "tudo vale", qualquer coisa, mesmo insignificante, pode ser olhada como objecto artístico. Desse modo, a própria "coisa", no seu real, torna-se invisível.

A não ser que um gesto desesperado, mas consequente, tire as devidas consequências de um tal estado de coisas, como foi caso recente de Gillermo Habacuc Vargas, um artista da Costa Rica que decidiu expor um cão vadio faminto numa galeria de arte. Tal como os ready-made de Marcel Duchamp, também este "cão" foi encontrado por aí, a vadiar, e elevado à dignidade da "coisa" artística por meio de um gesto que não deixou de causar escândalo.

O artista foi o escolhido para representar o seu país na "Bienal Centroamericana Honduras", correndo uma petição, on line, para que o prémio não lhe seja atribuído.

Na verdade, porém, o que fez ele? Limitou-se a "expor", a revelar, não só aquilo em que a arte se tornou (não um outro olhar sobre a vida, mas uma nova forma de cegueira) como aquilo em que nos tornamos todos nós: olhando para a vida como se ela fosse uma questão estética. É como se o poder das imagens, por mais devastadoras ou cruéis que se apresentem, nos paralisasse ou impedisse de agir. A prova é que ninguém rompeu o círculo mágico da arte para se aproximar do cão , dando-lhe comida ou água e impedindo-o de morrer. Nem sequer este poderá dizer (se um cão dissesse alguma coisa...depois de morto), como a personagem de Kafka, que morreu como um cão, pois os cães não costumam morrer em galerias de arte, a não ser que a moda pegue.

Não obstante, na "época sem vergonha" em que vivemos, este gesto "desavergonhado" não deixa de ter mérito, ao pôr a nu a coisa terrível em que arte se pode (nos pode) tornar. Desse modo, escandaloso, ele atravessou a barreira, o torpor do bem e do belo, fazendo-nos entrar num limiar de maldade essencial que nos abala, que abala tanta gente, porque é a nossa própria maldade que aí nos toca e perturba, como um cão vadio escanzelado.

24.10.07

A fórmula


Todos os dias sai um novo livro que promete finalmente revelar o segredo, a fórmula ou a receita do sucesso e da felicidade. A acreditar no marketing promocional, nunca foi tão fácil, como agora, ser feliz.

Porém, se todos os dias sai um novo livro é porque aquilo que prometia o velho não funcionou. Ou seja: cada novo livro que promete revelar a fórmula, é, paradoxalmente, a prova de que não há fórmula.

Por que se vendem tão bem?...



22.10.07

Como é da praxe!

Todos os anos é assim, pelo menos neste país à beira mar plantado: a entrada na universidade é acompanhada por estranhos rituais que alguém baptizou de praxe. A praxe escandaliza porque é, ou parece ser, o avesso da Universidade.

O que parece comandar o discurso universitário é um saber despojado de paixão. Contudo, é possível descortinar, sob as vestes de um tal despojamento, uma paixão que o inflama: o poder. Como já admitia Platão, saber é poder.

Deste ponto de vista, o discurso universitário é, fundamentalmente, um dispositivo de poder. Entrar na universidade é, ao mesmo tempo, acomodar-se a um tal discurso e submeter-se a um tal dispositivo.

Eis o que vem à tona, para escândalo de muitos, na altura em que a verdade fala pela bocas dos excessos que são cometidos por uns sobre os outros, os praxantes sobre os praxados, na época da praxe.

A praxe
arremeda o discurso do poder, levando até ao limite e virando do avesso o seu dispositivo. Ela é, por assim dizer, o seu avesso pulsional: a caricatura ritualizada de todas as formas de domínio de uns sobre os outros, dos mais velhos sobre os mais novos (caloiros) infligindo-lhes sevícias morais (e até físicas, cada vez mais físicas) e obrigando-os a comportamentos degradantes.

Apesar de tudo, no calor do excesso se revela que o objecto que por ali circula não é todo subsumido pelo dispositivo académico e deixa restos... difíceis de engolir...

20.10.07

um grão de real

Por vezes, é preciso afastarmo-nos um pouco do objecto para que ele possa brilhar (ou ofuscar-se) a uma outra luz. Escrevi há algum tempo, neste mesmo blog, algumas considerações sobre o filme de Carlos Saura, intitulado "Fados". Nessa altura, procurei sobretudo destacar um conjunto de singularidades ( e mesmo virtualidades) que, a meu ver, o caracterizavam.

Não retiro o que disse, mas gostaria de acrescentar algo a partir do que considero, hoje, a sua "limitação". Essa limitação não reside, por exemplo, na falta de beleza. É um filme bonito, de diversos pontos de vista. Uma bem sucedida coreografia.

Porém, da dança das imagens e do sons, bem como da pose dos músicos convidados, fica-nos a impressão de um "final" - como se diz da prova dos vinhos - em que falta, por assim dizer, um grão de real.

Um grão de real não torna o objecto mais belo, mas, pelo contrário, mais rugoso, áspero, irregular ou até mesmo dissonante. É aquilo que não se encontra jamais num postal ilustrado: o que está antes ou depois da beleza e, por isso, mais perto da vida.

13.10.07

Maturidade

A civilização inventou um disparate que se chama "maturidade". Ser maduro significa, essencialmente, não ter comportamentos de criança e guiar-se, única e exclusivamente, pela luz da razão. Acontece que é nos momentos em que esta luz se apaga e voltamos a ser crianças que é possível "tropeçar na felicidade".

Foi, porventura, com este raciocínio que "os idiotas"(idioterne) do filme de Lars Von Trier (1998) se dedicaram a redescobrir uma série de comportamentos próprios de crianças ou deficientes (babando-se, por exemplo, ou passando em público por verdadeiros deficientes mentais) a fim de alcançar uma naturalidade ou genuinidade que a civilização (burguesa) teria "recalcado".

De um certo ponto de vista, este filme é paradigmático de toda uma corrente de ideias que alimenta a "cultura" actual: é preciso, por todos os meios, travar o curso do tempo, do amadurecimento, e recuperar a infância (ou juventude) perdidas.

Porém, tal como mostra o filme de Lars Von Trier, este processo de "idiotização" ou infantilização tem um limite (real) e acaba por revelar, de um modo ou de outro, a sua artificialidade: a busca de pureza e naturalidade revela-se, no fim, como pura fantasia. Excepto para aqueles que a vivem a céu aberto, tal como é representado por Karen, uma das personagens.

9.10.07

Paradoxo


Num certo sentido, nunca estivemos tão dependentes das contrariedades do real como agora: desde as alterações climáticas às flutuações do petróleo ou das taxas de juro, que condicionam a nossa vida até ao mais ínfimo do quotidiano, tudo parece enovelar-se numa teia de circunstâncias que nos tornam a vida cada vez mais difícil.

Ao mesmo tempo, porém, nunca houve tanta literatura, apologia, discurso ... apelando à libertação interior. Estão neste caso, por exemplo, os livros que enchem cada vez mais as livrarias, reais ou virtuais, os cursos ou seminários, os filmes...sobre auto-ajuda (nome genérico e algo vago para uma série de coisas distintas, uma espécie de salada onde cabe quase tudo).

Será que estamos perante uma "revolução interior" (uma "nova era" de espiritualidade) ou tão só perante uma nova forma de consolação, compensação, alienação (profundamente narcísica) para a nossa cada vez maior dificuldade, impossibilidade de agir no real?