29.6.10

A vida sexual de Kant

Parece que até os mais avisados acabam, uma vez ou outra, por morder o isco. Foi o caso, por exemplo, do filósofo francês Bernard-Henry Lévy que, no seu livro De la guerre en philosophie, citou uma suposta obra dedicada à vida sexual de Kant, da autoria de um tal Jean-Baptiste Botul. O filósofo teria de reconhecer, depois, que este autor não passava afinal de uma invenção jornalística.

O caso parece constituir um bom exemplo de uma velha acusação atribuída a Freud: o "pansexualismo". Ou seja, caricaturando, a tendência a ver sexo em tudo e todos. Ele pode igualmente ser uma boa ilustração dos tempos que correm: ansiosos de ver tudo, de pôr tudo a nu. Até mesmo o que não existe...

Mas talvez a questão seja outra: o que é, afinal, mais estranho? Que Kant tivesse uma "vida sexual" ou que, tal como reza a lenda, nada de semelhante, de "patológico", tivesse abanado, perturbado, feito tremer o edifício lógico, gelidamente racional, em que ele se encerrou?

27.6.10

Dizer a verdade e apenas a verdade!

"Quem quiser saber a verdade, repito, a verdade, insisto, a verdade (do que eu penso), basta consultar o site da Presidência da República - lá está toda a verdade!" (O presidente Cavaco Silva, ontem, em resposta aos jornalistas).

Eis o apelo de alguém que diz ter como princípios fundamentais, de que não abdica, ser honesto e dizer sempre a verdade.

Há muitos anos, o psicanalista francês Jacques Lacan iniciou uma emissão televisiva afirmando igualmente dizer sempre a verdade. Eu digo sempre a verdade, mas não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível materialmente: faltam palavras. ("Televisão", Outros Escritos).

Serão mais perigosos aqueles que não dizem a verdade ou aqueles que têm a ilusão de poder dizê-la toda?

21.6.10

Até onde pode chegar a loucura...quantitativa?

Confesso a minha ignorância: desconhecia a existência de tal coisa.

Foi ao passear pelas ruas de uma cidade do Sul do Brasil que deparei com um...Tesômetro: um objecto suposto medir a intensidade da paixão, segundo a legenda. Como vim depois a saber, este objecto não é tão inédito assim. Basta procurar no Google (ferramenta onde quase tudo se acha, excepto o "remédio" para a "crise" que vem afectando a Europa) para encontrar abundantes e ilustrativas referências ao dito objecto.

Vivemos, sem sombra da dúvida, na era da avaliação: tudo tem de ser medido, avaliado, quantificado.

Depois de tanta "loucura", restará ainda alguma espécie de "paixão" para medir?

18.6.10

A morte serve para continuarmos a viver, muito simplesmente

A frase é de José Saramago, que nos deixou hoje.

Nos últimos dias, a morte levou  duas pessoas que eu estimava muito: um escritor, de quem eu era leitor assíduo, e um colega e amigo - Pedro Lau Ribeiro, fundador de SPPB - com quem eu  trabalhava e confraternizava semanalmente.

Saramago deixou um livro inacabado - ainda que a sua obra estivesse "fechada", como se dizia hoje na rádio; o Pedro deixou um desejo...inacabado.

Um e outro estiveram "vivos" até ao fim.

Eles continuarão a "viver" em nós, leitores e amigos.

Que a sua morte seja uma inspiração para continuarmos a viver.

Muito simplesmente.

17.6.10

In-disciplina

É uma frase do conhecido filósofo espanhol Fernando Savater: uma "autoridade" apreciada, lida e recomendada em muitas escolas portuguesas.

É a frase que abre um texto sobre o problema da indisciplina nas escolas e reza assim: "o aumento da violência nas escolas reflecte crise de autoridade familiar."

O texto de Savater é interessante, levanta muitas questões pertinentes, apela ao envolvimento de toda a sociedade na resolução do problema, mas parece-me que - tal como acontece em outros domínios - que se continua aqui no JOGO DO EMPURRA: a culpa é dos pais, a culpa é dos professores; no meio disto tudo tende a esquecer-se que tanto uns como outros, pais e professores, família e escola, também têm estado em mutação, juntamente com a sociedade, o país, a Europa, o mundo. Nos "tempos líquidos" que vivemos (Zygmunt Bauman), é preciso, talvez, "liquefazer" também, um pouco, o nosso modo de pensar e agir. Não podemos ser demasiado "sólidos" (rígidos), apelando aos velhos esquemas e respostas, quando o mundo se tornou "líquido". É preciso inventar novas soluções, não se limitando a repisar os caminhos já percorridos. 

É uma ideia.

4.6.10

Vanitas

Em 1973, no Seminário Encore, o psicanalista Jacques Lacan escrevia o seguinte: "o discurso científico engendrou toda a espécie de instrumentos que é preciso (...) qualificar de gadgets. Vós sois de ora avante, infinitamente mais do que podereis pensá-lo, sujeitos de instrumentos que, do microscópio à rádio-televisão, se tornam elementos da vossa existência." (Lição de 13 de Março de 1973).

Passados que são mais de trinta anos sobre o dito de Lacan, na era da Internet, a "realidade" está aí para confirmar o poder...do discurso.

Capitalismo e ciência dão-se as mãos para (in)satisfazer o desejo e mergulhar o sujeito num banho de "objectos" descartáveis.